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Montmartre / 18° arrondissement

André Carretoni

Quem diz Montmartre, diz Pigalle, diz Moulin Rouge, diz Sacre-Cœur; quem diz Place de Tertres, imagina Renoir, Degas, nus, Toulousse-Lautrec. Uma cena que foi eternizada pela vida que levou, quando era jovem, com seus vinte e poucos anos e seu copo de absinto, sentado ao lado de dançarinas de can-can. Contudo, quem vai a Montmartre, encontra um turismo desenfreado, escolhe lembrancinhas importadas e tenta evitar os golpes dos ciganos.

Nenhum pintor ou poeta poderá reviver os anos artísticos de Montmartre... em Montmartre. Hoje, a idade chegou àquelas ruas, e o que fez aquele lugar ganhar a fama que ganhou foi a originalidade, não a reciclagem. É como se disséssemos que Van Gogh poderia voltar a pintar no mesmo quarto da casa de seu irmão, ignorando os turistas ao pé de sua janela e os guias a explicarem tudo aquilo que ele nunca imaginou.

Não podemos borrar cores que estão secas. O lugar físico está lá, mas a alma desse bairro partiu, espalhou-se pelo mundo, voou até os quartos dos jovens artistas desconhecidos que estão tentando viver de sua arte, uma arte faminta, acima de tudo; Amedeo Modigliani não vive mais no 18° arrondissement, vive na periferia, onde é capaz de pagar, com dificuldade, o aluguel de seu quarto.

Pigalle: sex shops e casas de massagem e de strip-tease; uma válvula de escape para todo o tráfico do sexo que existe na Europa. Mulheres dos países do leste que tiveram seus passaportes confiscados por cafetões e cocktails caros a serem pagos por curiosos desavisados.

Moulin Rouge: dançarinas de can-can a cem metros e uma garrafa de champanhe na mesa a cem euros.

Sacre-Cœur: a Meca católica - turistas a girarem no sentido horário em torno de um altar e a serem repreendidos por tirarem fotos escondidas; se quiserem clichês, que comprem postais na lojinha da paróquia.

Place de Tertris: caricaturas, quadros feitos em série e caros, uma homenagem ao nome da praça.

Mas nem tudo virou passado em Montmartre; ainda temos a vindima, que, apesar de quase nos impedir de andar pelas rua Azaïs, traz o senhor de sessenta anos de volta a casa, com a mesma paixão de quando era jovem, porém, mais experiente.

Montmartre dos seus boêmios, da vida que eu tive, Montmartre.

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A seguir, para ouvir "La bohème", com Charles Aznavour, clique no ícone abaixo, à esquerda.


Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criais famine
Et toi qui posais nue

La bohème, La bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, La bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelques bistros
Contre un bon repas chaud
Nous prenaient une toile
Nous recitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver

La bohème, La bohème
Ça voulait dire tu es jolie
La bohème, La bohème
Et nous avions tous du génie

Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'asseyait enfin
Devant un café-crème
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie

La bohème, La bohème
Ça voulait dire on a vingt ans
La bohème, La bohème
Et nous vivions de l'air du temps

Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
A mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Don't plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts

La bohème, La bohème
On était jeunes, on était fous
La bohème, La bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout

<>_<> tradução <>_<>

Eu lhes falo de um tempo
Que os menores de vinte anos
Não podem conhecer
Montmartre naquele tempo
Pendurava suas lilás
Até sob nossas janelas
E se o humilde mobiliado
Que nos servia de ninho
Não pagava uma mina
É lá que a gente se conheceu
Eu que chorava miséria
E você que posava nua

A boêmia, a boêmia,
Isso queria dizer: a gente é feliz
A boêmia, a boêmia,
Nós só comíamos um dia em dois

Nos cafés vizinhos
Nós éramos alguns
Que esperávamos a glória
E apesar da miséria
Com o estômago vazio
Nós não deixávamos de acreditar
E quando algumas tavernas
Contra uma boa comida quente
Nos levava uma tela
Nós recitávamos versos
Juntos ao redor do aquecedor
Esquecendo do inverno

A boêmia, a boêmia
Isso queria dizer: você é bonita
A boêmia, a boêmia
E nós tivemos tudo do gênio

Frequentemente me acontecia
Diante do meu cavalete
Passar noites brancas
Retocando o desenho
Da linha de um seio
Da curva de um quadril
E isto só pela manhã
A gente se sentava finalmente
Em frente de um café com creme
Esgotados mas deliciados
Era preciso que a gente se amasse
E que a gente amasse a vida

A boêmia, a boêmia
Isso significava dizer: a gente tem vinte anos
A boêmia, a boêmia
E nós vivíamos do ar do tempo

Quando ao acaso dos dias
Eu vou dar uma volta
Ao meu antigo endereço
Eu não reconheço mais
Nem as paredes, nem as ruas
Que viram minha mocidade
Do alto de um escadaria
Eu procuro o atelier
Do qual mais nada sobrevive
Dentro da sua nova decoração
Montmartre parece triste
E as lilás morreram

A boêmia, a boêmia
A gente era jovem, a gente era louco
A boêmia, a boêmia
Isso não quer dizer mais nada

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. Dentre outros livros, é autor do romance Mais alto que o fundo do mar (2008). É colaborador de Tertúlia e, no momento, passa férias no Brasil.


 

 

  • 181_charles_aznavour_-_la_boheme.play

08/01/2011