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Eu não entendo nada de alta gastronomia – Parte 3 (de 3) /

Renato Alessandro dos Santos

Uma das refeições mais extasiantes que já provei foi no Restaurante do Rá, em São José do Barreiro, um vilarejo – na verdade, um distrito – de 300 habitantes e sem uma rua asfaltada, escondido no silêncio de Minas Gerais. É um restaurante que o dono abriu em seu sítio e, ao redor, há um galinheiro, patos, porcos, galinhas de Angola. O lugar não poderia ser melhor. Eu e meu filho comemos feito reis, enquanto a mãe dele, que gosta dos bichinhos da roça, ainda não havia se conformado com essa proximidade tão grande. O cardápio? Carne de porco mantida em grandes potes cheios de banha, galinha caipira, peixe frito, salada de tomate e alface, arroz, feijão, limão cravo e pimenta bode.

Dizem que o melhor tempero é a fome. Concordo. Nesse dia, nós fomos conhecer a Casca d’Anta, uma cachoeira de 186 metros de altura, que fica na Serra da Canastra. Aventura à parte, quando voltamos, a fome era nossa companheira inseparável. Se a ocasião pedia uma cerveja gelada, por que não comer por ali mesmo? Minha esposa torceu o nariz; sua opinião era a de que o lugar não deveria ser muito limpo e tal. Como assim?! O restaurante já nos fora altamente recomendado por Thaís e Maurício, o amável casal dono da pousada Irmão sol. Alea jacta est.

À porta do restaurante, o importante era tomar cerveja e comer bem, muito bem. Pedimos nosso lauto almoço-jantar, e o garçom, ou melhor, o dono do restaurante, disse que teríamos de esperar mais ou menos uma hora para que ele preparasse a comida. Achei o comentário oportuno: como é um restaurante à beira da estrada de terra, e se você não estiver cheio de pudores diante da simplicidade do lugar, tudo tem de ser feito na hora, sem desperdício. Tudo bem, nós aguardamos. Enquanto isso, uma cerveja, por favor. Pois não. E o menino? Um refrigerante, por favor. É sempre importante dizer “por favor”, não é mesmo?

Enquanto a comida não chegava, meu filho divertia-se: ficou brincando com toda sorte de bichos – cães, gatos, além dos patos, galinhas e porcos que, vez ou outra, surgiam por ali (e por aqui) novamente. Eu e minha mulher a repassar a aventura recém-vivida e a cervejinha a fazer tudo valer a pena. Foi então que, uma hora depois, lá vinha um menino nos servir os pratos. Meus sentidos não me traíram e, a cada prato colocado à mesa, ficávamos mais agradecidos. Comecei a comer. Come-se bem em Minas Gerais. A comida mineira é de deixar uma pessoa satisfeita plenamente.

Comecei com a carne de porco. Uau! Se você nunca experimentou carne de porco na banha, então, você precisa dar um pulinho em Minas. É logo ali. No tempo de meus avós, era comum armazenar carne de porco na banha. Ao menos foi o que meus pais me contaram, após ter relatado quão delicioso foi comer no Restaurante do Rá, especialmente, a carne de porco. A refeição me fez lembrar a simplicidade da comida da minha mãe, especialmente, por causa do sabor, que me conectava afetiva e acolhedoramente com o passado, com uma época em que nós todos ainda morávamos com nossos pais, você se lembra? Se não há lugar como nossa casa, como O mágico de Oz faz todo mundo acreditar, também não há comida igual à de nossas mães. Não há. A menos que você tenha comido o pão que o diabo amassou, quando criança, como nos romances de Dickens. Se for este o caso, ninguém melhor do que você para dar valor ao que come. De qualquer forma, para mim, é sempre uma satisfação muito grande sentir o aroma que se insinua da panela no fogo, quando a mãe faz a sopa de mandioca que é uma delícia.

O Restaurante do Rá é um lugar que deveria visitar mais vezes. Havia ainda a galinha caipira. Minha mulher, que não come carne vermelha (tsc, tsc), achou o molho muito ralo. Concordo. Mas era galinha caipira, e como abrir mão de galinha caipira?! Então, provei a galinha. Tudo bem, o molho não ajudou, mas a maciez da carne e seu sabor incomparável me fizeram agradecer a Deus por ter aquela comida diante de nós. Gotas de limão cravo sobre o arroz e o feijão, e um pouquinho de pimenta, fizeram a refeição ficar ainda mais saborosa. Não havia jeito. Seria preciso voltar para casa rolando, tal eram as formas circulares que meu corpo tomava à medida que nossa refeição chegava ao fim. Já parecia uma daquelas pessoas roliças dos quadros de Botero e até poderia imitar Violet Beauregard, aquela menina da versão original da Fantástica fábrica de chocolate. Lembra dela? É a garota que rola pelo chão como uma bolinha de gude tamanho GG. Seria engraçado ver minha mulher e meu filho me levando de volta para casa como se eu fosse um desses pneus velhos de carro com os quais as crianças da minha época gostavam de brincar. Se fosse o caso, não deixaria de sorrir um só instante. Não me lembro da fisionomia do dono do restaurante, mas me recordo de sua simpatia e do atendimento acolhedor. Pedi a conta. Paguei. Muito pouco por muito. E meu filho me levou embora preso em sua mão: naquele momento, virara aquele porquinho da capa do disco Animals, do Pink Floyd, aquele que fica flutuando pelo céu.
 

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19/12/2010