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As curvas de Paris / 19º arrondissement

André Carretoni

O arquiteto Oscar Niemeyer foi responsável pelo projeto do prédio que hoje abriga a Sede do partido comunista francês.

Imagine um diafragma prestes a explodir, uma toupeira pronta para aparecer ou prisioneiros a sete palmos de uma prometida liberdade. Assim desponta parte dessa obra que se encontra no 19º arrondissement de Paris, como um símbolo do momento em que um povo surgiu e deixou suas marcas na cultura local.

Todos nós estamos neste momento marcando ou influenciando alguma coisa. Somos animais sociais, e não há maneira possível de agir para dizermos que fomos capazes de passar por aqui, em branco. Buracos negros influenciam galáxias, estrelas influenciam planetas, luas influenciam marés e governos influenciam sistemas econômicos distantes. Meteoros desenham crateras. Nós marcamos a vida de nossos amigos, de nossos inimigos, de nossa família, dos colegas, marcamos com aquilo que dizemos, que escrevemos e pela maneira como nos comportamos. Responsabilidade? Todas. Há tempos que penso duas vezes antes de jogar uma garrafa de plástico no meio do lixo orgânico.

"Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito."
(Oscar Niemeyer)

Se você vier a Paris, não se esqueça de sair da reta turística chamada Champs-Élysées para fazer um desvio fortuito até a Geode e o canal Saint-Martin, dois dos lugares interessantes de Paris que acabam ficando para depois. Lá, tanto aprender ciência – como criança – quanto sentar para ler um livro no regaço de uma sombra será possível.

E aonde quer que você vá, deixe uma boa marca.

Um passeio que ainda não fiz foi pegar um bateau nesse canal e, através de sistemas de comportas, seguir pelo rio Sena, uma correnteza desenhada com a delicadeza de uma... curva.

Por sinal, quando vier a Paris, faça curvas e mais curvas, lembrando-se de que muitas vezes nos encontramos melhor quando estamos perdidos. Paris não é exceção: possui obras que estão apenas esperando por um acidente fortuito, ou uma coragem inconsequente, para entrarem na objetiva de sua câmera.

Por sinal, faça sempre curvas. Não pegue sempre o mesmo caminho e não faça de um gesto um hábito, pois, afinal, uma das qualidades que mais admiro na vida é a possibilidade do inimaginável.

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. Dentre outros livros, é autor do romance Mais alto que o fundo do mar (2008). É colaborador de Tertúlia.
 

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05/12/2010