)Entrevistas(

Ignácio de Loyola Brandão & Araraquara /

Renato Alessandro dos Santos

Ignácio de Loyola Brandão estava de muito bom humor na manhã de sábado, 19 de junho de 2010, durante seu bate-papo com o público em Ribeirão Preto. Devia ser a quarta, quinta ou sexta vez que o via em ação. Em nenhuma delas, jamais vi o escritor perder a esportiva ou apresentar-se friamente ao espectador. Por isso, não foi nenhuma surpresa ouvi-lo dizer que, se a plateia quisesse, ele ficaria por ali até o sol se pôr, para desespero dos organizadores da 10ª edição da Feira do Livro de Ribeirão Preto, que cumpriam religiosamente os horários de cada apresentação.

E o que eu, minhas duas irmãs, Silvia e Thaís, Herbert Richers, José Celso Martinez Corrêa, Fernanda Venturini, Dorival Júnior, ex-técnico do Santos, e Ruth Cardoso temos em comum com Ignácio de Loyola Brandão?

Somos todos de Araraquara, essa cidade que o autor de Zero (1975) leva com ele, aonde quer que vá. Após o bate-papo, o escritor falou ao Tertúlia sobre cinema, jornalismo, literatura e, claro, sobre Araraquara.

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Tertúlia - Após ter saído de Araraquara para São Paulo e conhecido o mundo (Berlim, Roma, Nova York e outras cidades), o senhor ainda pensa em voltar de vez para sua cidade natal?

Ignácio de Loyola Brandão - Não. Meu mundo hoje é São Paulo. Eu fui para São Paulo com 21 anos e, lá, estou há 53 anos. Foi o lugar onde me estabeleci, fiz família, onde me arraiguei, ou enraizei, e é o meu lugar hoje.

Tertúlia - Em 1957, com 20 anos, o senhor entrevistou o primo do General Eisenhower em São Paulo. O senhor havia acabado de entrar numa redação de jornal e ainda não sabia falar inglês muito bem e, mesmo assim, encarou a entrevista.

Loyola - Foi em março de 57. Foi meu primeiro teste no jornal Última Hora. Era um Milton Eisenhower, que estava hospedado num hotel. O chefe de reportagem mandou ligar para o hotel. O repórter que ligou não falava inglês e ligaram direto para o quarto do homem. Aí, ele perguntou se alguém falava inglês e, dentre todos que ali estavam, eu era o único que falava. Eu falava um inglês bastante razoável, que era um inglês do ginásio. Um inglês que eu aperfeiçoava em aulas que o professor Pimenta dava, aulas extras para quem quisesse. Eu lia muito e assistia a filmes o tempo inteiro. E aí eu fiz essa primeira entrevista e vim, redigi, entreguei. Tive que reescrever três vezes. No dia seguinte, eu estava contratado.

Tertúlia - Como é que foi para o senhor fazer parte como figurante no filme O pagador de promessas, do Anselmo Duarte?

Loyola - Eu apareci numa pequena cena. Era uma brincadeira. Eu entro nessas brincadeiras todas pela vida afora. Eu fui fazer uma reportagem sobre as filmagens. Num dia, o Anselmo, que era muito brincalhão, disse para mim “Você hoje vai ser figurante” e me colocou numa cena, que acabou sendo a fotografia da capa do programa de Cannes. Então, eu sou um figurante Palma de Ouro (risos).

Tertúlia - Dos romances menos conhecidos do senhor, gosto muito de O anjo do adeus. Como eu também sou de Araraquara, eu gostaria de saber o quanto de Araraquara existe em Arealva, a cidade de nome fictício do romance?

Loyola - Toda nossa geografia é composta na verdade pela memória do lugar onde a gente viveu e pela memória de todos os lugares por onde a gente passou. Então, eu não sei dizer quanto. Alguém é que vai ter de ler e fazer esse cálculo. Eu publiquei, acabou e não volto mais. E também não se faz com uma fórmula e nem com uma equação e nem com porcentagem.

Tertúlia - Mas o senhor não acha que seja uma pergunta que não faça sentido, porque...

Loyola - Faz sentido sim, mas não sou eu que saberia responder.

Tertúlia - O senhor comentou sobre o rapaz que queria sair de Araraquara para São Paulo e que acabou suicidando-se, pulando justamente sobre o trem que ia para São Paulo. Em Dentes ao sol o senhor lembrou-se disso. Bem, eu queria saber por que esse é seu romance predileto?

Loyola - Porque ele é ligado à Araraquara e por esse amigo que me era muito caro e que, infelizmente, acabou enlouquecido.

Tertúlia - Quando eu era moleque, estava no Cine Capri, numa sessão de Viagem insólita, do Joe Dante, e justamente naquela sessão houve um problema na projeção e o filme foi interrompido. As luzes foram acesas e, sem conserto, nós todos tivemos de ir embora. Até hoje penso ter visto o senhor lá, na plateia. Era o senhor?

Loyola - Essa pergunta me lembra aquele velho filme Onde estavas quando as luzes se apagaram? Filme sobre o famoso apagão de Nova York que deu o que falar. Até hoje existem os filhos do apagão. Eu fui crítico de cinema e estive em Hollywood fazendo reportagem. Pude visitar o cenário de Viagem fantástica [filme de Richard Fleischer que inspirou Viagem Insólita]. Mas, não, não era eu. É que há muita gente que me imita. Eles pensam que sou eu.

Tertúlia - Por falar nisso, o senhor já notou que está cada vez mais parecido com Rubem Fonseca (risos)?

Loyola - Ah, não. Eu sou mais bonito (risos).

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Entrevista publicada anteriormente no Portal Cronópios em 28 de outubro de 2010.

 


 

28/11/2010