)Cinema(

Com tantos "defeitos", afinal, por que A suprema felicidade é um bom filme? /

Beto Canales

É difícil criticar um filme. Não muito raramente, as pessoas confundem os autores com sua obra e, ao apontar um defeito em uma das partes, acaba por atingir a outra. Para não correr o risco de isso acontecer e tornar ainda mais complicado o texto, minha singela opinião sobre o jornalista/comentarista Jabor: não gosto dele. Sua arrogância é maior que suas ideias. Bem maior. Uma pessoa que não permite o erro está fadado à soberba, o que é suficiente para entrar na lista dos "não gosto". Isso, claro, não quer dizer que ele não escreva bem, fale bem e dirija bem. Feita a ressalva, escrita unicamente pela resposta do cineasta aos críticos da Vejinha e do Estadão que condenaram seu filme e, parece, foram um pouco além do cinema em si, vamos lá.

Se me perguntarem se A Suprema Felicidade é bom, eu responderia: sim, é. Apesar dos inúmeros defeitos, é bom. Apesar das cenas forçadíssimas, como uma velha sacudindo a bandeira do Brasil, sozinha na tela, com um extraordinário artificialismo, ou os quase três "atropelamentos" em um tempo que as ruas eram desertas de automóveis, feitos, talvez, na intenção de agregar ritmo ou mostrar que os carros da época estavam presentes, a obra cumpre sua função.

Na verdade, o filme é um formigueiro de clichês. O tempo todo, em toda cena. Eles tornaram-se tão frequentes que acabaram sendo a linha mestra da história, girando de um para o outro, fazendo o tempo passar na vida do protagonista. Mas, convenhamos, o clichê só existe porque deu certo. O problema é o exagero, que parece descuido. Outro fato que deve ser considerado é a insistência com o desnecessário. Diversas cenas entram no filme com o simples propósito de ilustrar, decorar. Admitamos, porém, que a plasticidade é bem-vinda. E muito. Uma sequência de "empunhas", pegadinhas, também preocupam. Não sei bem qual foi a intenção daqueles joguinhos de palavras, talvez mostrar a "malandragem" da época, mas o fato é que não ficou nem um pouco natural. Algumas atuações (tenho uma certa implicância com os atores brasileiros, confesso, pois acredito que a maioria deles deveria ingressar urgentemente em uma escola de teatro e interpretação) também deixam a desejar. Destacando-se pelo lado positivo, e tornando-se um gigante em cena, o ótimo Marcos Nanini, que contribuiu siginificativamente para o sucesso da trama.

Mas, com tantos "defeitos", por que, afinal, o filme é bom?

Porque é cinema, no sentido mais fiel da palavra. É a ausência daquele ritmo maluco que Hollywood impõe, dos tiros, das corridas e perseguições, dos efeitos especiais, da trilha arrebatadora, dos sons mirabolantes que tornam A Suprema Felicidade um bom filme. Inclusive, deve-se chamar atenção para a música, sempre presente e muito bem usada durante as mais de duas horas de apresentação. A fotografia e a ambientação também merecem elogios. Muito bem feitas.

O melhor é, antes de ir ao cinema, esquecer as influências dos gringos, e curtir a história como uma pequena volta ao passado, não somente na tela mas também em como o filme foi construído.

Gostar eu gostei e recomendo, mas, confesso, senti saudades da Sônia Braga e do Pereio em Eu Te Amo.

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Beto Canales produz contos e narrativas longas, apesar de atrever-se a "cometer" crônicas. A universalidade de seus personagens e os lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte. Cinéfilo apaixonado e crítico de cinema, escreve em vários sites e revistas. É também editor da Esquina do Escritor e autor de A Vida Que Não Vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio / 2009. 

15/11/2010