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Viagem ao mundo dos sonhos /

Renato Alessandro dos Santos

Eu me lembro da primeira vez que vi Viagem ao mundo dos sonhos (Explorers, EUA). O filme foi lançado em 1985. Eu tinha 13 anos. Com 13 anos, eu queria encontrar a garota dos meus sonhos, jogar bola, ler, ouvir música e começava muito a ir ao cinema. Muito. Vi Viagem ao mundo dos sonhos no Cine Coral, um cinema aconchegante e atraente de Araraquara, mas com cadeiras de madeira e afastado do centro da cidade. Lá se vão duas décadas de minha vida, quando vejo passar, no espelho retrovisor de minha memória, o tempo todo que ficou para trás. Hoje, ao me lembrar do dia em que vi esse filme nos anos 80, tenho certeza de que seu valor sentimental, para mim, é infinitamente maior do que seu valor cinematográfico.

Lembro também de como me sentia quando era adolescente: o teen spirit hipnótico que fazia eu me apaixonar toda semana por uma garota diferente. Puxa vida, lá ia meu coração esparramado pelo inferno! A angústia por ter a certeza de não viver o que deveria estar vivendo naqueles precisos átimos de segundos – que se perdiam como pétalas de girassol levadas por essa ventania esmagadora que é a adolescência (sem contar a necessidade de mirar estrelas, inclinando a cabeça para trás, esperando encontrar refúgio em meio ao burburinho que ouvia, enquanto o caudaloso rio seguia seu percurso adiante). Adiante.

Hoje, o prédio do Cine Coral abriga uma igreja evangélica. Aos 13, eu tinha a idade certa para me deixar levar pela história de Viagem ao mundo dos sonhos e por sua magia também, porque o filme traz todos os ingredientes capazes de fazer um adolescente apaixonar-se por estrelas, pelo espaço sideral e, também, por foguetes e alienígenas. Bem, ao filme. É uma história que remete ao universo dos filmes B de ficção-científica dos anos 50, bem ao gosto do diretor ultracultuado Joe Dante, que coloca sua imaginação prodigiosa a serviço da exploração do espaço, um tema fascinante a qualquer adolescente sempre disposto a procurar estrelas no céu deserto.

Ben Crandall (Ethan Hawke) é um garoto apaixonado por discos-voadores e por uma garota que lhe tira o sono. Ele é amigo de Wolfgang (River Phoenix), um menino nerd a levar a vida dentro de um laboratório improvisado no porão de sua casa. Sua família é um acontecimento a parte. O pai é um cientista com a cabeça no mundo da Lua, e a mãe não fica muito atrás não, enquanto os irmãos de Wolfgang são diabretes dispostos a destruir a casa. Há ainda Darren Woods (Jason Presson), o garoto que ajuda Ben a não levar uma surra do menino chave-de-cadeia da escola. Darren é um pré-adolescente todo casmurro, cheio de personalidade. Juntos, os três vão construir uma espaçonave tosca (com pneus velhos, uma lata de lixo, bancos de madeira e janelas de máquina de lavar roupa); é a Thunder Road, nome de uma música de Bruce Springsteen. A descoberta de todo o processo científico que os levará à viagem a outro planeta é primordial para a aventura: primeiro, Wolfgang joga elementos de um sonho de Ben em seu computador Apple de 126 kbytes (!), o que faz surgir uma esfera capaz de ser pilotada; depois, a céu aberto, ao realizar uma experiência com o que descobriram, Wolfgang é “engolido” pela esfera e, flutuando, voa velozmente sobre o campo. Pronto. Era o primeiro passo rumo ao desconhecido.

Faltava construir a espaçonave e testá-la, que é o que fazem. A cena dos garotos flutuando na frente de uma tela de drive in, enquanto é exibido um filme de ficção-científica, é a cara de Joe Dante. Feito o teste, o céu era o limite, e eles o ultrapassam, deixando a nave ser inexplicavelmente guiada por um campo gravitacional vindo do espaço. Eles sabiam que alienígenas os esperavam e não tinham medo por causa disso. Era a viagem, a descoberta, a exploração do espaço que estava em jogo e que importava a eles. Partem, e com isso o filme entra numa outra fase. Quando o vi pela primeira vez não gostei dessa segunda parte. Era outro filme, a partir do momento em que os meninos chegam à nave-mãe, onde conhecerão os alienígenas que os levaram até ali. Mais tarde, descobrirão que se trata de crianças ou de adolescentes aborrecidos que, sem ter o que fazer, resolveram buscar amigos na Terra. Em 1985, era uma mensagem edificante e cheia de encanto a um garoto que gostava de ouvir e cultivar estrelas. Talvez seja por isso que Viagem ao mundo dos sonhos, mesmo depois de tantos anos, ainda mantenha seu encanto. Em um domingo, seis de julho 2008, revi o filme com meu filho, que adorou. E assim, de uma geração a outra, certos filmes vão resistindo ao tempo e, incólumes, nunca morrem.

Viagem ao mundo dos sonhos é um filme a se guardar, original, na prateleira da estante de DVD`s.
 

  • 173_thunder_road.play

23/10/2010