)Blog(

Eu não entendo nada de alta gastronomia – Parte 2 /

Renato Alessandro dos Santos

Já falei da sopa de mandioca que a mãe faz?

Se ela lançasse um serviço delivery, com motoboys cortando o trânsito numa noite fria e chuvosa, rapidamente, como craques de futebol levando uma sopa recém-tirada do fogo até a casa das pessoas, decerto, a receita já seria uma franquia. Não é exagero, mesmo de quem já deixou a casa dos pais há tempos. Na panela de pressão, a sopa fica a cozinhar em fogo-baixo por muito tempo. Pedaços de carne em quadradinhos, cebolinha, salsa, os mililitros exatos de água que só a mãe é capaz de medir, a quantidade de sal, as fatias de cebola e, por último, a mandioca recém-retirada da terra, isto é, da chácara do pai (que também detém uma versão primorosa da receita). Como não sei cozinhar, imagino que ainda há algum ingrediente-mistério que, ansioso, fique a aguardar o momento em que, finalmente, terá sua quintessência roubada. Anotações para mim mesmo: rever Beleza roubada.

Ver minha mãe na cozinha é deixar o tempo passar: enquanto a sopa é mantida em fogo-baixo, ela vai cuidando do arroz, do feijão, do tempero da salada de tomate e alface e, também, da “mistura”, geralmente, inacredincríveis bifes com cebola ou pedacinhos de linguiça de porco, verdadeiros acepipes celestes. A sopa fica pronta e o aroma permanece na casa por fantasiosos minutos que só fazem atiçar os sentidos. Sirvo-me sem parcimônia. Se o primeiro sutiã é inesquecível, o sabor da primeira colher no céu da boca é capaz de fazer o espírito subir ao céu e sentar-se à direita de Deus-pai. Os pedacinhos de carne e de mandioca, saboreados com pequenos pedaços de pão, derretem na boca como o relógio de Salvador Dali. Eis que me lembro do limão-cravo ou das pequenas doses de vinho tinto seco derramadas sobre a sopa e, então, a refeição finalmente está perfeita. Já cansei de sugerir à mãe a instalação de várias redes na cozinha. Dessa forma, após tomar uma generosa porção de sopa, seria possível refestelar-se na rede, entregue ao sono merecido de quem acabou de se atirar de corpo e alma aos prazeres da boa mesa.

Lembro tudo isso, enquanto a memória fica a selecionar pontos luminosos de minha vida entregue à gastronomia. A verdade? Os restaurantes deveriam preparar mais pratos com carne de panela de muito boa procedência. Adoro carne de panela. A frase deve doer em quem sabe portar-se com dignidade à mesa, seja diante de uma frugal lagosta, seja diante de um sofisticado (e caro) prato preparado por um chef em ascensão. Um dia, fiquei quase duas semanas sem comer arroz e feijão, e eu – como bom brasileiro – gosto muito de arroz e feijão. Muito. Estava em Viña del Mar, Chile; diante de mim, surge um restaurante onde só havia arroz. Nada de feijão. Tudo bem: estava muito longe de casa e, por isso, comemorei – estupefato – a descoberta! Puxa vida, foi de dar água na boca! Aliás, eis aí um bom & convencional nome para um restaurante: Água na Boca. Devem existir zilhões por aí. Não sei. Uma hora pergunto ao Google. Sei é que no filme Meu tio matou um cara, do diretor Jorge Furtado, o personagem se chama Éder. Ele abre um bar. O nome do bar? Jardim do Éder. Aí, sim, um trocadilho engraçado, além de um bom nome para um boteco.

Já falei do Restaurante do Rá, em São José do Barreiro, Minas Gerais?

Não? Minutinhos...
 

  • 169_03_formigas_nunca_morrem_de_fome.play

03/10/2010