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Eu entro aqui /

André Carretoni

Paris, 15 de setembro de 2010. 

Pensei em escrever meu primeiro texto para Tertúlia sentado à uma das mesas do restaurante Deux Magots. Teria sido uma ótima maneira de agradecer pelo convite que me fora feito: "você será nosso correspondente de Paris". Entretanto, como a globalização também trouxe seu lado negativo, preferi começar discordando de tudo aquilo que ela tem feito a certos templos franceses.

Lá se fora a época em que um escritor podia viver aqui com três dólares diários; quer dizer, poder ainda pode, mas não acredito que os pombos do Jardin de Luxembourg transmitiam as doenças que correríamos o risco de pegar hoje. Graças aos preços de uma cidade para turistas, três dólares não nos dão nem mais o direito de ficar à espera de uma mesa na Brasserie Lipp, e um bœuf que leva o nome de um tal escritor no Closerie des Lilas custa quarenta euros. Com isto, um dos meus escritórios de eleição passou a ser este restaurante da cadeia Malongo, um fast-food dos cafés, onde costumo ficar com uma taça de cappuccino vazia durante horas.

No início, confesso que desejei frequentar o Café de Flore, mas, com o tempo, comecei a tomar consciência de que é preferível gastar meus euros com um bom jantar do que acreditar que esses lugares serão capazes de melhorar meu estilo.

50 Rue Saint-André des Arts.

Um dia frutífero para mim funciona assim: está fazendo sol, as pessoas procuram as famosas terrasses para seus aperitivos, para serem vistas; eu entro aqui, descubro um ambiente tranquilo, compro minha cafeína, escolho uma das mesas do fundo, coloco meus fones de ouvido e permaneço escrevendo por mais de três horas, interrompendo-me apenas para comprar um expresso.

De qualquer forma, escreverei sobre os lugares pelos quais grandes poetas passaram, onde inesquecíveis músicos moraram ou editores trabalharam, pois uma coisa não mudou em Paris: continua sendo uma das cidades mais perfeitas para escritores, cujos imóveis continuam transpirando o sentimento que fez Rimbaud passar uma estação no inferno e Jean Valjean dar sopa aos pobres, acompanhado ou não de toda esta geração perdida de turistas.

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. Dentre outros livros, é autor do romance Mais alto que o fundo do mar (2008). É o mais novo colaborador de Tertúlia. Seja bem-vindo, André.  

 

 


 

 

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19/09/2010