)Livros(

Numa toca no chão vivia um hobbit /

Renato Alessandro dos Santos

Quando chega o momento de ler um livro cortejado há tempos, nada mais importa: casa, comida, roupa lavada. Nada. É preciso esquecer a televisão, a vida doméstica, as horas. Da estante de livros, meu Hobbit sempre me lançava um olhar de paciência ancestral, cada vez que passava diante dele, enquanto eu também não sabia disfarçar a ansiedade sorrateira. Mirando-me, a caixa de O senhor dos anéis sempre me sorriu e, por trás do sorriso, via uma oportunidade única de aventura: uma aventura repleta de magia em terras distantes, numa época longínqua, ancestral, inalcançada pela memória humana.

Embora no cinema O senhor dos anéis seja uma trilogia, em 2002, a Martins Fontes lançou uma luxuosa caixa com quatro volumes enfeixados ali; a ovelha desgarrada é O hobbit, um agregado importante à trilogia. Com esse livro nas mãos, nos transportamos para um mundo habitado por homens que se transformam em ursos, águias que falam e lobos que trazem o caos. Durante alguns anos, com essa caixa a empoeirar na estante, enquanto nas telas O senhor dos anéis rendia uma franquia valiosa, havia em minha cabeça uma regra particular: antes de ler os três romances que compõem O senhor dos anéis, eu deveria começar com O hobbit – e foi o que fiz.

Lá e de volta outra vez

Ler O hobbit é como deixar para trás o barulho da cidade e todos os afazeres que, num piscar de olhos, e sem nos dar nada em troca, levam nosso tempo embora. Por isso, é uma satisfação tremenda acompanhar as aventuras do hobbit Bilbo Bolseiro. Ainda mais pela forma como a história é contada, pois traz um narrador que é como aqueles contadores de história capazes de reunir uma porção de gente ao redor de uma fogueira, noite adentro, enquanto feitos heroicos são tecidos de geração a geração. Há mais, claro. Há Gandalf, o mago de barbas brancas até a cintura, responsável por tirar esse ilustre hobbit do sossego de sua toca, um arejado e aconchegante abrigo incrustado numa colina tão serena quanto os chás da tarde que Bilbo faz questão de preservar, dia após dia, com direito a biscoitinhos e horas preguiçosas fumando seu cachimbo.

A complicação começa quando Gandalf surge inesperadamente à porta de Bilbo, atrapalhando seus planos de agradável sossego. O hobbit não compreende bem o que está acontecendo, o que pouco importa: de uma forma ou de outra, ele será obrigado a iniciar uma jornada que transformará sua vida; uma travessia repleta de desafios que Bilbo terá de superar para alcançar sua condição de herói. Assim, no dia seguinte à visita do mago, por último, é o próprio Gandalf quem cruza novamente a soleira da porta do hobbit; por último, pois antes dele, exatamente, treze anões já estão levando Bilbo à loucura, transformando a placidez de sua rotina em um pesadelo: um pesadelo repleto de anões.

Bilbo Bolseiro & os 13 anões

Nenhum dos 13 anões do romance – Dori, Nori, Ori, Oin, Gloin, Fili, Kili, Bombur, Bifur, Bofur, Dwalin, Balin e Thorin Escudo de Carvalho – lembra o querido anão do filme O agente da estação, que ganha como herança uma casa caindo aos pedaços a poucos passos dos trilhos do trem e, lá, vê sua vida transformar-se. Não. Os anões de O hobbit parecem-se mais com os anões de Branca de Neve e os sete anões, pois cada um deles preserva – além da barba homérica – suas habilidades de mineradores e, por isso, sabem como poucos manejar ferramentas ou sobreviver em cavernas; por outro lado, são sovinas, muito sovinas, e o tesouro das minas – ouro e outros metais preciosos – faz muito bem a eles. Pensando bem, os 13 anões lembram os anões de jardim nos quais tanto vemos graça. Trata-se de uma história em que um hobbit irá ajudar anões a atravessar uma terra inóspita, em busca do tesouro deles, há muito furtado por um dragão chamado Smaug. Para envolver os leitores, a aventura traz todos os perigos que uma imaginação prodigiosa como a de Tolkien consegue criar: a Floresta das Trevas com aranhas gigantes, elfos, orcs, wargs (lobos) selvagens, o Gollum sibilante e sequioso de seu “preciossssso” e, por último, dentro da montanha, esse dragão colossal que repousa suas asinhas cascudas sobre o ouro dos anões.

Se no início Bilbo despreza o sentido de uma grande aventura, optando por sua bengala e não por uma espada, não poderia existir herói mais adequado a esta história cheia de privações e escoriações — além de gordurinhas localizadas que, a cada página virada, vão desaparecendo, uma vez que eles vão passar muita fome. Muita mesmo. Muita. A travessia da Floresta das Trevas não é o clímax do enredo, mas a operação de salvamento dos anões, empreendida por Bilbo, que, invisível, os salva de aranhas gigantescas, do tamanho de velocípedes, é inesquecível. Já passamos da metade do romance:

“As coisas pareciam estar indo muito mal de novo, quando, de repente, Bilbo reapareceu e inesperadamente atacou pelo flanco as aranhas atônitas.
— Em frente! Em frente! — gritou ele. — Eu cuido das ferroadas!
E assim fez. Voava para trás e para a frente, golpeando os fios das aranhas, cortando suas pernas e apunhalando seus corpos gordos quando chegavam perto demais. As aranhas inchavam de raiva, esbravejavam e espumavam, chiando maldições horríveis; (...) por mais que praguejassem, suas presas se distanciavam, lentamente, mas sem parar. Era uma situação das mais terríveis, e pareceu levar horas. Mas, finalmente, no momento exato em que Bilbo sentiu que não conseguiria levantar a mão para nem mais um golpe sequer, as aranhas de súbito desistiram, não os seguiram mais, e voltaram desapontadas para a sua colônia escura.”

Ritual de passagem

Como toda história que envolve feitos heróicos admiráveis, Bilbo enfrenta a estrada e dela sai outro hobbit, bem diferente do que era. Acompanhamos a transformação de um personagem que inicia sua aventura como alguém que não acredita muito em si mesmo, mas conta com o que tem de melhor: bondade, coragem, caráter que, após se revelarem, iluminam sua travessia. O leitor, nesses momentos, precisa dar toda atenção que essa evolução merece. Trata-se de um ritual de passagem, ou de muitos desses rituais, algo avassalador na vida daquele que, supostamente, deveria ser o primeiro leitor de O hobbit, isto é, o adolescente. Tal transformação pode ser percebida em passagens como a quem vem a seguir. Após Bilbo matar a primeira de muitas aranhas, o narrador comenta:

“Quando voltou a si, viu ao seu redor a costumeira luz cinzenta e fraca da floresta. A aranha jazia morta ao seu lado, e a lâmina da espada estava manchada de negro. De alguma forma, ter matado a aranha gigante, sozinho na escuridão, sem a ajuda do mago ou dos anões ou de qualquer outra pessoa, fez uma grande diferença para o Sr. Bolseiro. Sentiu-se uma nova pessoa, muito mais feroz e corajosa, a despeito do estômago vazio, enquanto limpava a espada na grama e a colocava de volta na bainha.”

Nem todos os adolescentes leram esse romance, mas alguns tiveram a oportunidade de lê-lo. Para quem leu O hobbit, a recompensa fica estampada no sorriso de girassol que se abre no rosto de cada um. Ao final, difícil não lamentar o fato de que, realmente, hobbits não existem. Uma pena. Deveriam existir. E existem. Nas páginas de Tolkien vivem. É para lá que você deveria ir.

Referência Bibliográfica

TOLKIEN, J. R. R. O hobbit. Tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves et al. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

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Texto publicado na revista Conhecimento Prático - Literatura.
 

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22/08/2010