)Cinema(

Cruze os dedos / Matadores de vampiras lésbicas

Renato Alessandro dos Santos

Minha mulher torceu o nariz quando viu Matadores de vampiras lésbicas (Lesbian vampire killers, Inglaterra, 2009) entre os DVD’s que trouxe da locadora. “Como assim?!”, disse a ela. “Qual o problema?”. Bem, confesso que sabia aonde ela queria chegar e, de qualquer forma, no fundo, desconfiava de que esse filme não tinha muito a ver comigo mesmo. Quer dizer, se tivesse 18 em vez de 38, teria; e muito. Adolescente, gostei bastante de vampiros e creio que, até hoje, ainda os aprecio. Mas com moderação. Ah, se esse filme existisse 20 anos atrás! O problema é que não tenho mais 18. Uma pena. Uma pena mesmo. Então, no final das contas, o pior é que o melhor de Matadores de vampiras lésbicas é, justamente, seu título vintage. Além da libido das moçoilas dentuças.

O filme é sobre uma maldição: um matador de vampiros ancestral, prestes a matar uma beldade de vampira, não com uma estaca no coração, mas decepando sua cabeça, ouve a dita-cuja lhe dizer que ele está frito, ou melhor, os filhos de seus filhos estão fritos. Em miúdos: um descendente do caçador de vampiros acabará pagando a conta. E esse sujeito é Jimmy (Mathew Horne), que terá de se livrar da vampira-chefe, afinal, desde que foi morta, séculos atrás, ela espera por seu revival regado a sanguinho novo, quando terá dentadura suficiente para vampirizar o planeta inteiro. Jimmy conta com a ajuda de seu amigo Fletch (James Corden) e também de uma garota, Lotte (MyAnna Buring), por quem se apaixonará. Lógico. Todos os personagens são planos, pré-fabricados em série na esteira hollywoodiana, e, por isso, carecem daquela complexidade que daria mais sustentação a cada um deles (caso não fossem personagens planos, certo?). Paciência. Ao menos há uma horda de garotas beicinhos que, mais tarde, serão as vampiras lésbicas do título.

Filmes como Matadores de vampiras lésbicas não são de terror. Estão numa linhagem que enfeixa terror e comédia na tela, mas não é o terrir engraçado e de filme B, com marca d’água e tudo, que encontramos em filmes de Ivan Cardoso, como As sete vampiras (Brasil, 1986) ou O Escorpião Escarlate (Brasil, 1987). É terror sem pimenta tabasco ou habanera, com clichês aqui e ali, além do susto esperado, que logo passa, abrindo alas para o sorriso chegar. Sem contar que, daqui a pouco, os vampiros vão ter um sindicato e, certamente, vão proibir por decreto-lei qualquer licença poética que algum produtor queira impor à lenda deles, ou seja, a velha ladainha envolvendo alho, vida notívaga, crucifixo, água benta e carótida saltitante. Não bastasse, agora, os vampiros perambularem em plena luz do dia (Crepúsculo, Eclipse etc.), em Matadores de vampiras lésbicas, quando mortas, o que jorra do corpo das moças é um líquido purulento com cara de cola feita em casa – para não dizer que lembra sêmen. Ah, por falar nisso, há algo mais: uma espada, tipo Excalibur, capaz de matar a vampira-chefe; inusitada, entretanto, é a manopla secular dessa espada, que tem o formato de... um pênis. Em guarda, naturalmente. Vejam vocês, meus amigos.

Enfim, vale a pena ver Matadores de vampiras lésbicas? Se você ainda não fez 19, sim; se está na casa dos 20 e poucos, tudo bem ainda. Mas, se já passou dos 35, esqueça! Há filmes sobre vampiros – menos velozes, e mais furiosos, diga-se – cujo charme é inigualável e que valem mais a pena, como o extasiante Drácula de Bram Stocker (Dracula, EUA, 1992), de Francis F. Coppola, ou o descarrilado A dança dos vampiros (The fearless vampire killers, Inglaterra, 1967), de Roman Polanski. Cruze os dedos. 

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Clique no ícone abaixo, à esquerda, para ouvir "Woman", de Wolfmother, canção que faz parte da trilha de Matadores de vampiras lésbicas.
 

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01/08/2010