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A morte do anti-herói americano / Harvey Pekar, American Splendor, Anti-herói americano, Robert Crumb

Renato Alessandro dos Santos

Harvey Pekar foi encontrado morto em sua cama, na madrugada de 12 de julho, em Cleveland. Tinha 70 anos. Em seu último domingo, foi dormir às quatro e meia da tarde, sentindo-se bem, segundo a esposa. Câncer de próstata, pressão alta e depressão vinham-no incomodando nos últimos anos. “Se eu morrer, o personagem continua?”, pergunta Paul Giamatti a Hope Davis (Joyce Brabner), no filme Anti-herói americano (American Splendor, EUA, 2003), que retrata a vida de Pekar. “Sou um cara que escreve sobre si mesmo num gibi ou sou apenas um personagem do gibi?” diz Giamatti-Pekar, antes de desabar no chão. Desacordado, lógico. Para alguém como Harvey Pekar, que fez de sua vida sua arte, derradeiramente, a morte chegou para unir as duas pontas.

American Splendor

Tudo começou em 1976, com uma revista de história em quadrinhos. Autobiográfica, American Splendor retratava o dia-a-dia de Pekar. O que fazia o leitor voltar a cada número era a verborragia rabugenta de Harvey contra tudo, especialmente, o trabalho, a falta de dinheiro e a tábula rasa que era sua vida. Mesmo assim, retratando seu cotidiano em que pouco acontecia, ou por isso mesmo, American Splendor tornou-se cult. Entretanto, a vida do autor continuou a mesma. Ao menos até 2003, quando Anti-herói americano chegou às telas do mundo todo e, mais tarde, às locadoras. Seria possível imaginar que, àquela altura, o filme teria transformado Pekar em um astro do cinema? Quem conhece sua história sabe que essa não é uma pergunta difícil de ser respondida.

Anti-herói americano

Pekar personifica em carne & osso o solitário anti-herói americano. O filme conta a história de um sujeito que é a síntese de muita gente que vemos por aí, ou conhecemos, ou que talvez até sejamos. Você conhece o tipo: alguém que, ao sair numa foto de formatura com toda a turma, um ao lado do outro, não seria visto por seus olhos, leitora ou leitor; ele está ali, mas você não o vê. Gente simples, como eu e você, talvez. Alguém parecido com esses personagens nerds das comédias americanas, como o estudioso e sardento garoto magricela de óculos ou a tímida menina desajustada que, obrigada a representar o papel de sua própria vida, parece dar a ele um significado secundário. São aqueles que não são populares e, nem sempre, têm dentes brancos, hálito de orvalho e o que fazer num sábado à noite. É a história de um sujeito desse tipo que o filme conta. É um anti-herói porque sua vida é um anticlímax. Nada de pontos luminosos, pois nada acontece na vida de Harvey Pekar. Coleciona gibis e discos antigos de jazz, lê romances, trabalha como arquivista, tem poucos e excêntricos amigos (um em especial, que é uma figura!), a mulher o deixou. Enfim, pode ter certeza: é uma vida das mais espirituosamente monótonas para a qual o cinema já mirou suas câmeras.

Robert Crumb

A vida de Pekar começaria a ficar um pouco mais interessante quando conhece Robert Crumb, que anos depois seria o cultuado quadrinista da contracultura e do underground das californianas ruas de San Francisco. Motivado pelo sucesso dos quadrinhos de Crumb, uma lâmpada acende em cima da cabeça de Harvey e ele tem uma ideia: retratar a si mesmo, contando sua história e seu cotidiano banal. Faz alguns esboços, desenhando os personagens com riscos e círculos toscos e nos balões coloca o que acontece em sua vida, ou seja, nada. Como algo realmente significativo não acontece, ele ilustra a narrativa com impiedosos comentários sarcásticos e irritados sobre pessoas que conhece e que encontra no supermercado, na rua, no serviço. O nada sempre pode ser alguma coisa, pois se o nada é nada, logo, já é alguma coisa, isto é, nada. Desculpe. Enfim, ele mostra os desenhos a Crumb, que (aleluia!) pergunta se pode ilustrá-los. Pronto. Um passo à frente. É a mesma coisa que ter Sebastião Salgado, diante de você, perguntando se pode tirar uma foto sua.

Surge American Splendor, HQ que se torna conhecida e que traz um pouco de notoriedade underground a Harvey, ou seja, mais uma vez nada. Sua vida muda? Nada disso, continua a mesma, embora um pouco mais agitada: ele conhece uma garota e, uma semana depois, casa-se com ela; torna-se presença constante no programa de auditório de David Letterman, até ser expulso pelo próprio, ninguém menos que o autêntico Jô Soares americano, em pleno ar; as histórias que conta em American Splendor são levadas para o teatro e, mais tarde, sua vida vira o longa-metragem Anti-herói americano, que o leva a conhecer a Europa pela primeira vez, aos 63 anos.

Notável é a maneira como o filme é conduzido pelas quatro jovens mãos de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, ambos diretores e roteiristas de Anti-herói americano. Notável. A tela vira páginas de quadrinhos e o filme mixa-se entre o documentário e a ficção. Desde o início, a voz cavernosa de Harvey Pekar narra a história. E surpreende, pois é uma voz esganiçada, de taquara rachada, o que quer que venha a ser uma taquara rachada. Pela voz em off, o espectador é informado de que aquele ali na tela, o ator Paul Giamatti, que obviamente interpreta Harvey Pekar, não é Harvey Pekar e, sim, of course, um ator. Ponto para vocês, Berman & Pulcini. São de licenças como essas que o filme é feito. Surge um novo personagem-ator em cena e logo a ficção é interrompida para que, em tom documental, a realidade caia na tela com a presença da própria pessoa que inspirou o personagem. Nada de novo sob o sol, mas são passagens como essas que surpreendem o espectador. Anti-herói americano é uma bela homenagem a Harvey Pekar. É um filme pra lá de criativo, como uma história em quadrinhos deve ser.

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A seguir, ouça "Ain't that peculiar", de Marvin Gaye, e a versão de Chocolate Genius para essa mesma canção; ambas fazem parte da trilha sonora do filme Anti-herói americano.
 

  • 160_marvin_gaye_american_splendor_soundtrack_aint_that_peculiar.play

  • 160_13_-_chocolate_genius_-_american_splendor_soundtrack_-_aint_that_peculiar.play

20/07/2010