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A cachoeira & o guarda-chuva / Viagem a São José do Barreiro (MG) em janeiro de 2008

Renato Alessandro dos Santos

Quem gosta de se aproximar da natureza, e não resiste à tentação da vida simples do interior mineiro, deve conhecer São José do Barreiro. Não se trata de uma cidade (não confundir com o município paulista de mesmo nome) e, sim, de um distrito de São Roque de Minas (322 km de Belo Horizonte), que num primeiro momento assusta o turista, porque tudo é muito humilde, muito simples, mas que, depois, revela seu charme. Não há o que fazer à noite. Não há lanchonetes, boates, vida noturna alguma. Mas há pessoas acolhedoras, que o recebem em casa com uma xícara de café coado na hora e com um queijo saboroso produzido na região, o queijo canastra. Canastra. Quem vai a São José do Barreiro vai até lá porque quer conhecer a Serra da Canastra, que é um lugar único, como todos os lugares, mas que tem um chão arenoso que lembra Marte, embora nunca tenha estado lá. Claro. O Parque Nacional da Serra da Canastra é endereço certo para se visitar. Cachoeiras, trilhas, ar puro... Trata-se de um ecoturismo que coloca a região como roteiro bucólico para quem gosta de, durante alguns dias, abandonar as buzinas dos carros para, como um caracol, viver no meio do mato por um período que amortece o corpo e a alma.

A cachoeira Casca D’Anta, uma das maiores do Brasil, fica em São José do Barreiro. É possível chegar até lá por uma trilha que se torna muito íngreme em alguns trechos, mas que pode ser percorrida com tranquilidade, até mesmo por quem está acompanhado de crianças – o que fez lembrar de meu filho, Théo, que se assustou em um trecho. Cabe contar a história. Chegamos tarde ao parque. Em janeiro de 2008, para visitar a cachoeira e o parque, os adultos tinham de pagar R$ 3,00 cada um. É pouco para se preservar a natureza. O problema é que não se pode entrar com nenhuma latinha de qualquer espécie. Nada de cerveja ao pé da cachoeira. O que é uma pena. Poderia deixar cada latinha dentro de um saquinho (de papel) e, ao voltar à cidade, jogaria tudo no lixo. Mas não havia tal possibilidade. Ficamos ainda um bom tempo dentro do carro, porque chovia a cântaros. No alto das montanhas, a chuva fizera brotar várias cachoeiras que se estendiam terra abaixo. Não poderíamos entrar no parque, enquanto o temporal não parasse. As pessoas que ainda restavam por lá já estavam voltando para casa. A chuva estava parando, mas nunca totalmente.

Descemos do carro e perguntamos aos guardas se podíamos entrar. Não sei se eles falaram alguma coisa sobre tromba d’água, mas a ideia, hoje, me dá calafrios. Na cidade, longe do campo, nos amedrontamos ao imaginarmo-nos cercados de cobras e de coisas que não somos capazes de controlar. Mas bastam dois dias no meio do mato e você já se sente o próprio Crocodilo Dundee. De qualquer forma, na portaria, os guardas deixaram que entrássemos. Impossível imaginar que eles nos deixariam entrar, se houvesse a menor possibilidade de uma tromba d’água àquela hora. Depois de uma breve revista em nossas mochilas, lá fomos nós sozinhos pela trilha. Sem cerveja; apenas água. O pior de tudo é que havia esquecido meu canivete suíço na pousada. E se aparecesse uma onça, como poderia espetar a lâmina em seu pescoço e salvar minha família?

Depois de um descampado, entramos a valer na trilha. Seria longo o percurso. Ainda bem que levamos água; como em todas as horas, água é uma bebida que nunca pode faltar goela abaixo. Andamos, andamos. Como não víamos ninguém mais no parque, ficamos preocupados. Deve ter sido o que deixou nosso filho assustado – à época, com sete anos. Chorou. Estávamos numa trilha. Olhando para baixo, só o rio ali. A luz de PERIGO acesa. Mas foi então que se processou naquele menino algo que fez com que ficássemos com muito orgulho dele: o choro levou seu medo embora, e ele reagiu, como um pequeno herói de um desenho animado. Cresceu. Como Alice que, no País das maravilhas, cresce e encolhe de acordo com cada circunstância. Com jogo de cintura, nos adequamos à vida, quando ela exige, não é mesmo? Foi preciso que ele passasse por aquilo, que passasse por uma experiência nova, para que pudesse mostrar algo novo a si mesmo. Minutos depois, ele já estava disposto a provar para nós, e para ele mesmo, que poderia chegar até o fim da trilha. Naquele instante, Théo crescia alguns centímetros dentro de si.

Estávamos no primeiro mirante. Dali, a cachoeira já se mostrava imponente; imagine quando chegássemos aos seus pés. Com nosso menino recomposto, nos aventuramos rumo ao fim da trilha, quando chegaria o momento de torcer o pescoço para cima e deparar com a grandeza e a força da natureza. O céu estava cinza como os olhos das garotas nórdicas. Começava a chover novamente, e depois de percorrer ainda um mato nada rasteiro, na verdade, um verdadeiro ninho de cobras mafagafinho, chegamos finalmente ao fim da trilha. Foi então que olhamos para cima. Numa interjeição: Uau! Para quem chega até ali, a trilha que leva à Casca d’Anta não é nada, perto da visão arrebatadora da cachoeira. Vê-la de baixo para cima é ter certeza de que o ser humano não é nada, anexado à natureza. Qualquer pessoa pode ver um prédio de 18 andares e se surpreender com seu tamanho. Agora, imagine dois prédios de 18 andares, um nos ombros do outro, desabando sobre seus pés em forma de água. É uma imagem a se guardar na memória e, não, em uma máquina fotográfica. A experiência sempre há de ser vivida para, dela, retirarmos aqueles momentos de que nunca esqueceremos. Enquanto olhávamos para cima, os pingos da chuva e da cachoeira deixavam nossa roupa molhada, extremamente molhada. Não me esqueci disto também: era tanta água, que seu impacto cá embaixo dava a impressão de que chove eternamente ao pé da cachoeira. Eu, que adoro a atmosfera que a chuva cria, quando torna o dia cinza e faz do cobertor um amigo inseparável, preciso voltar à Casca d’Anta. Mas, da próxima vez, levarei um guarda-chuva.
 

14/07/2010