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Em Araraquara, 14 anos depois / Santos vence Ferroviária por 3 a 0 na Arena da Fonte

Renato Alessandro dos Santos

O pequeno porco não quis ir. A amada também não. Eu não pensei duas vezes e, domingo de manhã, lá fui a Araraquara, terra de Ignácio de Loyola Brandão – e minha também –, para ver o amistoso entre Santos e Ferroviária. É um duelo que já tem uma história e tanto. Se nos anos 60, o time de Araraquara infernizava a defesa santista, há alguns anos, o torcedor da Ferrinha não tem muito que comemorar. Infelizmente. No domingo, 4 de julho de 2010, não foi diferente e o time da Vila Belmiro ganhou por 3 a 0. 

O jogo, como todo amistoso, não foi uma batalha digna de ser lembrada nos livros de História e muito menos um espetáculo daqueles que a memória não esquece jamais. Nada disso. No primeiro tempo, lá pelos 35 minutos, Neymar foi derrubado na área. Se a paradinha não pode mais ser executada, a cavadinha sim. Foi o que fez. Ao melhor estilo Loco Abreu, Neymar chutou no meio & no alto do gol, irreverente & ousado. Um belo gol de pênalti. 1 a 0 para o Peixe. Em seguida, dancinha, para não perder o costume. Nem bem a torcida havia parado de comemorar e o segundo gol foi desenhado pelo ataque santista. A bola caiu no pé de Alan Patrick e ele chutou para o gol. 2 a 0. Mais alguns minutos e... nada.

De volta ao passado

Chega o intervalo. Hora de mudar de lugar para conhecer um pouco mais o estádio Arena da Fonte, hoje, um dos mais belos palcos do futebol brasileiro. No ano seguinte ao nascimento da Associação Ferroviária de Esportes (AFE), em 12 de abril de 1950, seu fundador, o mineiro Antônio Tavares Pereira Lima, reuniu centenas de voluntários e, juntos, ergueram a Fonte Luminosa, estádio que foi inaugurado em 10 de junho de 1951. Foram cem dias de peleja, decerto, ininterrupta.

Durante décadas, a Fonte Luminosa foi o estádio da Ferroviária. Em 1996, durante o Campeonato Paulista, foi lá que eu e meu pai vimos o Santos derrotar o time de Araraquara por 3 a 0. Até hoje, lembro do gol que Giovanni marcou, numa arrancada que se iniciou no meio de campo e arrastou quase o time inteiro até a grande área do outro lado. Inesquecível. Ao menos é assim que a memória preserva aquele gol.

De lá para cá, a Ferroviária já não é mais o time arrebatador dos anos 60, quando Pelé e Cia. perdiam na Fonte Luminosa para Bazzani e Cia. Sim, pois se o Santos tinha Pelé, Ferroviária tinha Bazzani. Em setembro de 1960, como a locomotiva que simboliza o time de Araraquara, Fia, Zé Maria, Antoninho, Lucas, Dirceu, Rodrigues, Faustino, Dudu, Baiano, Bazzani e Beni passaram por cima de Pelé, Zito, Formiga, Dorval, Dalmo, Laércio, Getúlio, Mauro, Nei, Pagão e Tite. Naquele dia, a Ferroviária ganhou do Santos, sim, com Pelé em campo, por 4 a 0. Uau. Bons tempos. Para os araraquarenses. E para os santistas também. 

Mas o passado recente encontrou uma locomotiva em frangalhos. Não bastassem as campanhas cada vez mais pífias, a Ferrinha ainda afundava em dívidas. Em 1996, o time de Araraquara obteve apenas uma única vitória, em 30 jogos do Paulistão daquele ano. Fez 27 gols, mas sofreu 71. Em 16º lugar, o rebaixamento foi inevitável. Em 2001, em decadência feérica, a Ferroviária caía para a quarta divisão do Campeonato Paulista. Uma vergonha. Em 2004, em busca de retomar as conquistas do passado, tornou-se Ferroviária S/A, mas mesmo assim, até hoje, o clube-empresa conseguiu ascender pouco no Paulista e em outras competições. Em 2010, a batalha é para voltar à Série A2. Quem sabe?

De volta ao futuro

No domingo, terminado o intervalo, eu e meu pai já estávamos em outro lugar do estádio. Eu estava estupefato. Nunca havia ido a um estádio com elevador e, acredite, com sabonete líquido no banheiro (!). Impressionante a estrutura que a Arena da Fonte tem. Todos os lugares são numerados e têm assentos de plástico marcando o lugar. O estádio é inteirinho coberto, e o gramado é um tapete uniforme verde que lembra a grama sintética do futebol society. É um gramado tão bonito que parece um tapete verde (claro) em cima de outro tapete verde (escuro). Modernidade e elegância que só fazem girar os olhos de quem gosta de futebol. O segundo tempo começa e ninguém em campo parece muito disposto a jogar bola pra valer. Uma pena. Amistoso, né? Tudo bem. Daria tempo para continuar apreciando o estádio mais inacredincrível que já conheci. Eu sei, eu sei. Não conheço muitos. Nada de Morumbi, Maracanã ou qualquer um desses estádios grandiloquentes que foram construídos ou reformados para a Copa deste ano na África do Sul. Mas a Arena da Fonte, tirando a quantidade pequena de torcedores que cabem ali (20.287 lugares), não fica nada a dever a nenhum deles.

Se fora de campo, o estádio é pura empolgação, dentro, o jogo continuava... modorrento. A bola ia pra lá, ia pra cá e... não acontecia nada. Dorival Júnior, técnico do Santos que nasceu em Araraquara, começou a trocar os jogadores. No gol, tirou Rafael e pôs Felipe. Tirou Neymar, André, Arouca e foi colocando outros jogadores, como Zezinho, Zé Eduardo, Marcel, Roberto Brum, Renan Mota e Breitner, que, numa cobrança de falta, quando ninguém esperava mais nada, fez o terceiro gol do Santos. Iupi. Minutos depois, o jogo acabava, curiosamente, com o mesmo placar de 14 anos atrás. Santos sempre Santos.
 

06/07/2010