)Futebol(

Nunca foi tão fácil completar um álbum de figurinhas da Copa / 19a Copa do Mundo, figurinhas da Copa

Renato Alessandro dos Santos

Com o início da 19ª Copa do Mundo, crianças de Batatais de todas as idades vêm se reunindo na praça Dr. Fernando Costa. Trata-se do maior escambo de figurinhas a céu aberto da cidade. São “crianças” de todas as idades, dos cinco aos 85, que têm por companhia pais, filhos, avôs ou netos. Sim, a praça (do mundo) é nossa! Quem pensa que apenas lasanha é capaz de reunir a família, ou melhor, várias gerações da família à mesa, na hora do almoço de domingo, é porque não conhece as figurinhas e o álbum da copa que, juntos, nos dias 22 e 23 de maio de 2010, sábado e domingo, aliaram ao redor de um mesmo objetivo avô e neto, mãe, pai e filhos, tios, sobrinhos, afilhados, enfim, gerações que, numa companhia gratificante, desfrutaram de horas de alegria, ansiedade, sorte e concentração.

Eu e meu filho Théo, nove, fomos convidados pela Revista Ideia para acompanhar a divertida sessão de venda, compra e troca de figurinhas do álbum da Copa, editado no Brasil pela Panini. Se neste ano as figurinhas chamaram a atenção até de ladrões que, gatunos, assaltaram uma banca de jornal em busca de completar os álbuns de seus petizes ou, talvez, a fim de inflacionar o mercado negro de cromos da Copa — em que um Robinho pode custar o exorbitante valor de um real —, na praça, a figurinha 106, reunindo todos os jogadores da seleção argentina, chegou a receber a oferta de R$ 0,50, quantia ignorada pelo vendedor. Só mesmo um álbum de figurinhas para obrigar alguém a pagar 50 centavos por uma foto dos jogadores argentinos e, mesmo assim, ainda ter de ouvir que sua oferta foi recusada. Ponto de exclamação.

Não foi o que aconteceu com Théo. No primeiro dia, sábado, ele precisava de 40 figurinhas. Saiu da praça com 26 novos cromos. No domingo, faltavam 14. Chegamos às 11 horas; 1h e ½ depois, ele completava seu álbum. “Iupi!”, comemorou. A última iguaria foi comprada por R$ 0,15, sem pechincha, obedecendo ao valor de mercado. Os olhos sorriam: contentamento e dever cumprido. A última Coca-Cola do deserto foi a figurinha de Benjamin Huggel (591), jogador de 91 quilos que defende a seleção da Suíça. Será que ele é mais um dos jogadores que estão no álbum, mas que não vão à copa, como Ronaldinho, André Santos e Adriano? Naquele momento, só o Google poderia dizer.

Guilherme Santos Rocha Leite, 32, educador físico, não levou nem 20 minutos para encontrar a última figurinha de seu álbum, a do jogador Martin Skrtel (471), do Liverpool, que defende a seleção da Eslováquia. Ela foi vendida por 15 centavos. Como é possível perceber, ninguém está nessa por dinheiro. Mais do que qualquer lucro, a diversão está em encontrar as figurinhas que faltam; é uma peleja que pode levar semanas, mas que conta com a ajuda de amigos e da família toda. Jair Munari, 68, é um mecânico aposentado que, no sábado de uniforme céu azul, acompanhava seu neto de Orlândia, Pedro, 10, na difícil tarefa de encontrar as figurinhas restantes. “O que mais gosto é de ficar com ele, ajudando-o a encontrar uma figurinha que não tenha”. A presença do avô ao seu lado é cativante. “Dessa forma, a gente pode ficar juntos, se divertindo”, diz o menino.

“Essa interação é muito saudável”, afirma a terapeuta ocupacional Elena Lancellotti Larcher, 34, mãe de Gabriel, oito. O motivo de ambos estarem ali não poderia ser outro, claro, além de trocar figurinhas, mas como descobriram a praça? “Meu amigo Juninho me falou daqui”, diz Gabriel, antes de escapulir em busca de mais alguns cromos. Ao voltar, antes de sair correndo novamente, com o mesmo objetivo, responde que a figurinha mais difícil é a de Josué e que a seleção brasileira será campeã. Ainda faltam 161 cromos para completar o álbum e, por isso, Gabriel não para. Perto dele, acompanhado de um amigo, João Vitor Grizola Costa, 12, usa uma camiseta comprada pela internet que mescla as palavras ‘Olé’ e ‘voltei’ em alusão ao retorno de Robinho ao time da Vila. Para ele a seleção canarinho não ganha a Copa. A honraria caberá à Espanha. E o que faz aqui, João? Figurinhas, claro. Ainda faltam 100, mas “a mais difícil é a 00”, comenta. É o segundo álbum de copa que coleciona. “O de 2006 foi mais difícil de completar”. 

Miguel Lúcio Trevisani, 49, comerciante, já finalizou seu álbum. O que não o impede de buscar novas aquisições para o álbum de figurinha da afilhada, Maria Fernanda, 10, que, com a ajuda do tio, está quase para completar sua coleção, para inveja de seus amigos de quinta série, ainda no início da jornada em busca dos cromos que faltam. Miguel explica que a troca de figurinhas na praça surgiu por acaso, mas, pensando melhor, foi por causa da feliz localização da banca de revistas, onde todo mundo acabou se encontrando; daí em diante, partir para o escambo foi um pulo. “Para essa copa não tem figurinha difícil”, diz. “Eu já enchi o meu álbum e agora ajudo meus três sobrinhos a completar os deles”. Ele conta também que já é o sexto álbum que coleciona. “Em 1990, quando minha filha nasceu, eu comecei a colecionar as figurinhas da Copa”, diz. “Agora, 20 anos depois, quero encontrar os álbuns de 1982 e de 1986”. A tarefa não é nem fácil nem barata. Na internet, o álbum com a seleção de Zico, Socrátes, Falcão, Éder, Roberto Dinamite, Paulo Isidoro, Toninho Cerezo e outros craques custa de R$ 200,00 a R$ 400,00 – mas não é fácil de ser encontrado. E pensar que, naquela época, as figurinhas vinham em volta de um chiclete Ping Pong macio & cor-de-rosa. “Um amigo meu tem o álbum da Copa de 1970, com Pelé, Tostão, Rivelino”, diz Miguel. “Ele o guarda num cofre e não o vende por dinheiro algum”.  

Por essa altura, para decepção de Fabiano de Oliveira, 14, aluno do Portinari, o estudante Caio, 19, que faz Engenharia de Produção na USP de São Carlos, ainda relutava em vender sua figurinha 106 por 50 centavos. Ele preferia trocá-la por outra, mas, sem acordo, o negócio não saía. ½ hora depois, Fabiano estava sorridente. Encontrou a figurinha com a seleção da Argentina pelo preço adequado, isto é, 15 centavos. Conseguiu lucrar R$ 0,35. Não tem jeito, lucro e ludismo andam sempre de mãos dadas no futebol. Ainda mais quando se tem de pagar tão caro por uma figurinha da Argentina.

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Texto publicado na Revista Ideia, de Batatais, de junho de 2010, e adaptado para Tertúlia.
 

20/06/2010