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Encontro marcado / Beto Brant, Mãos de cavalo, Até o dia em que o cão morreu, Cordilheira, Dentes guardados, Daniel Galera

Renato Alessandro dos Santos

O que fazer quarta-feira em Batatais, às 10 horas da manhã? Assistir pela TV aos minutos finais do jogo entre Honduras e Chile? Admirar as figuras de topiaria da praça central? Ver os quadros de Portinari na Igreja Matriz? Bem, ao visitar Batatais, você pode – e deve – fazer tudo isso, mas não às 10 horas da manhã de quarta-feira, 16 de junho de 2010, quando o escritor Daniel Galera vem à cidade para falar sobre leitura e literatura na pequena biblioteca municipal.

Se você leu Dentes guardados (2001), Até o dia em que o cão morreu (2003), Mãos de Cavalo (2006), ou Cordilheira (2008), mesmo se estiver gripado, com o nariz escorrendo, o corpo mais vulnerável que a defesa do Santos Futebol Clube, bem, você sabe que tem de ir ao encontro do autor. Daniel vem à cidade por iniciativa do projeto “Viagem literária”, da Secretaria de Cultura de São Paulo. Em 2009, foi a vez de Bruno Zeni conhecer Batatais, essa pequena cidade onde nasceu José Olympio, editor que publicou muitos dos maiores escritores e poetas brasileiros do século 20, como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e outros, muitos outros. Ah, vale a pena também conhecer o túmulo de J.O. no cemitério da cidade

Daniel Galera aumentou o número de seus leitores com Mãos de Cavalo (2006), romance publicado por uma grande editora (Cia. das Letras). A literatura tem de ter autores que, à sua geração, dizem o que tem a dizer enquanto o sol ainda não se pôs. “Fale agora ou cale-se para sempre!”, disse Kerouac certa vez. É o caso de Daniel. Dentro de campo, ele vem mostrando como se ganha o jogo e, por isso, deixou de ser mais uma promessa para se tornar um escritor cujo trabalho vale a pena acompanhar.  

Alguns críticos torceram o nariz ao romance de estreia, enquanto leitores ficaram satisfeitos por encontrar uma narrativa cheia de sanguinho novo e que, como tem de ser, se expressa sem rodeios, coloquial e sem se esquecer do que é literatura, lembrança reforçada por uma carpintaria literária repleta de cartas na manga, como (1) a fusão entre dois acontecimentos, que se intercalam em capítulos e que levam ao clímax de Mãos de cavalo, ou (2) mesmo a ausência do nome do narrador de Até o dia em que o cão morreu, recurso que reforça a simplicidade com que o narrador-personagem encara a vida. A narrativa desse romance – publicado primeiro pela Livros do mal e, depois, pela Cia. das Letras (2007) – é tão simplesmente costurada que acabou virando o filme Cão sem dono, pelas mão de Beto Brant, cineasta que deixou de ser, também, promessa há muito tempo, para se tornar um grande talento de sua geração. Alguma dúvida? Já viu O invasor (2001), com Paulo Miklos no papel de Lobo Mau?

 

14/06/2010