)Literatura(

Uma noite com Cristovão Tezza / Ensaio da Paixão, Trapo, Cristovão Tezza, O filho eterno, Menalton Braff

Renato Alessandro dos Santos

Saio de casa duas horas mais cedo. 45 quilômetros separam Batatais de Ribeirão Preto. Quero assistir à aula inaugural de Cristovão Tezza, o premiado autor de O filho eterno (Record, 2007), na SBPRP – Sociedade Brasileira dos Psicanalistas de Ribeirão Preto. Ainda tenho de encontrar minha esposa e seu irmão no Ribeirão Shopping porque quero comprar uma bicicleta. Anos e anos de boa vida estariam chegando ao fim, agora, com horas e horas pedalando rua acima, rua abaixo. É sexta-feira à noite, seis de março de 2009, e o calor derrete. Esta é provavelmente uma das semanas mais quentes do ano.

Por todo o percurso, consigo ver o sol aos poucos desaparecendo na escuridão, até ser totalmente engolido por ela. Na estrada, ansioso, imagino não apenas acompanhar a palestra do escritor, mas entrevistá-lo, tirar uma foto com ele e, se possível, conseguir seu e-mail. O curioso é que não poderia estar ali, um evento restrito a psicanalistas. Devo tudo à Mércia, diretora da SBPRP à época, a quem convenci depois de dizer que, no dia seguinte, não poderia ir à palestra aberta ao público porque trabalharia. O que era a mais transparente verdade. Por isso, ela concordou que eu fosse – mas desde que ficasse quietinho em meu canto, como uma bolinha de gude sem criança por perto.

Ao deixar a rodovia Anhanguera e contornar a rotatória em direção ao shopping, o relógio marcava sete horas da noite. Bastava encontrar minha esposa e seu irmão, comprar minha bicicleta e arredar o pé dali em direção à palestra. Ligo para o celular dela. Os dois estão no Pinguim do Ribeirão Shopping. Sim, ir a Ribeirão e não tomar um chope no Pinguim é o mesmo que ir a Minas e voltar sem um queijo no porta-luvas. Elipse. Copos de chope depois, estou desesperado comprando minha Caloi e rezando para a moça do caixa acabar logo de imprimir a nota fiscal. Depois da quarta vez que dei o número do CPF a ela, deu certo: lá ia eu embora correndo, enquanto José Augusto, o irmão de minha mulher, saía da loja empurrando a bicicleta para mim. Mais tarde, logo que cheguei, encontrei a bicicleta com o pneu da frente encostado na parede, porque ela não coube inteira no carro, o que me deixou arrasado, pois já queria dar uma volta no quarteirão, para comemorar. Silvia, minha mulher, me contou que os seguranças do shopping pediram aos dois que levassem logo aquela bicicleta dali. Uai, qual o problema? Bem, não é mesmo comum ver pessoas passeando de bicicleta dentro de um shopping.

Enquanto saía correndo, olhei o relógio: 15 minutos para as oito e meia. Ainda bem que a SBPRP fica a cinco quarteirões do Ribeirão Shopping. Cheguei. Estacionei o carro. Havia pedido ao meu cunhado que levasse a bicicleta para mim, porque não queria deixá-la dentro do carro, à noite, enquanto via a palestra. Minutos depois, Mércia chegava com Cristovão Tezza. Apresentei-me e, para minha surpresa, ela já havia falado com ele a meu respeito. Prazer, Cristovão. Apertei a mão do escritor que, de imediato, mostrou-se uma pessoa extremamente gentil e educada, como todo mundo deveria ser. A noite estava começando. Meu entusiasmo era grande.

A SBPRP é bem menor do que imaginei, mas aconchegante. Impossível imaginar uma palestra em Ribeirão Preto sem ar-condicionado; não foi o caso naquele momento, pois o lugar não só tem ar-condicionado como cadeiras estofadas e chão acarpetado. Os psicanalistas de Ribeirão estão de parabéns. Cristovão espera alguns minutos; a plateia ainda não está pronta. Passado todo esse tempo opaco, pude finalmente aprender a mexer no meu Mp3. Daria certo o meu plano: conseguiria gravar a palestra. Mas não foi sempre assim.

Em 2008, na 8ª edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, via e ouvia Daniel Piza falando sobre Machado de Assis. Antes, pedi ao autor de Machado de Assis – um gênio brasileiro (Imprensa Oficial, 2005) que colocasse o Mp3 perto dele, já imaginando ouvir tudo aquilo de novo em casa. Terminada a palestra, ele me entregou o gravadorzinho digital e, sem querer, apertei um botão-mistério. Pronto. Lá iam embora Daniel e Machado. Dois dias antes, acontecera o mesmo. Daniel Galera e Santiago Nazarian contavam detalhes do Método Criativo do Escritor Iniciante e tudo mais. Chegado o fim e o momento obscuro de apertar a tecla que finaliza a gravação, apertei outra, e lá ia eu fazendo besteira, para perder toda a palestra dos dois. Raios. Triplos. Caminhou o tempo e eu aprendi a mexer na maquininha. Estava com ela em punho na SBPRP, para registrar frases que cairiam como luvas em minhas mãos, que pelejavam em busca de palavras. Deu certo. Consegui gravar a palestra do autor de O filho eterno, Ensaio da paixão, Trapo e outros romances admiráveis da literatura brasileira atual.

Cristovão foi apresentado à plateia por Menalton Braff, prata da casa aqui da região californiana e endinheirada do interior paulista. Grande sujeito, o Menalton. “Obrigado, obrigado”, agradeceu Tezza. Em seguida, Cristovão começou falando que nunca fizera terapia e que, naquele momento, seria analisado não por um psicanalista, mas por um grupo deles. Risos da plateia e, dali em diante, o escritor e professor Cristovão Tezza falou sobre literatura. Décadas de docência lhe deram a segurança de que precisava para aquele momento. Cristovão lia seu texto, mas não era uma leitura insegura e tediosa. Nada disso. Era uma leitura pontuada por comentários a respeito de romances que revelam quão inseguros e perdidos podemos ser em meio a acontecimentos cada vez mais corriqueiros da vida cotidiana. Cristovão estava em casa, e a plateia disposta a aprender com aquele homem que poderia ser confundido com nosso próprio pai, tio ou avô, dependendo da geração à qual pertencemos. Nada de terno e gravata. Cristovão usava uma camisa branca sobre a calça e sapatos de bater perna por aí, óculos fora de moda e uma caneta no bolso da camisa. Tudo revelava um ser humano modesto, não fosse o parque de diversões que ele tem dentro da cabeça, com roda-gigante, carrossel e montanha-russa capazes de fazer dele um grande escritor.

A cada página virada de sua aula inaugural, a literatura passava, transbordando, de um lado a outro do auditório. Não deve ter sido fácil estar ali sob o olhar atento de dezenas de psicanalistas. Naquele momento e lugar, o escritor não se comportava como um romancista festejado pela mídia e, sim, como alguém que, à margem dos holofotes, não cedia aos encantos que fazem girar a cabeça de qualquer um. Cristovão Tezza só continuava ali, pouco à vontade em seu canto. Faz parte do jogo. Foi então que chegou o momento esperado, isto é, o relato do pai em seu convívio com o filho com Síndrome de Down, e o autor finalmente falou de O filho eterno e de Felipe, rapaz que hoje é conhecido como o filho eterno de Cristovão. Falou pouco, muito pouco, e sem sentimentalismo, sem melodrama, sem rodeios, como tem de ser. Foi aplaudidíssimo ao final, por muito tempo.

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Este texto foi publicado na Revista Ideia, de Batatais, Ano I, Abril de 2010.
 

03/05/2010