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Paralelepípedos / Os paralelepípedos da Vila Mimosa, literatura brasileira, Alexandre Coslei

Beto Canales

"Deus converte, mas o Diabo seduz!..."

Assim termina - com "D" maiúsculo, exclamação e reticências - um dos mais de vinte contos de Os parelelepípedos da Vila Mimosa. Outro, exatamente o conto que empresta o título à obra, preconiza, já na segunda linha: "A decadência não é uma opção voluntária, é um desencontro íntimo, profundo e nebuloso. Decair é enredar-se num casulo". Das tantas e tantas frases espetaculares lidas entre as páginas do livro, destaquei essas duas por uma só razão: é disso que tratam os personagens de Alexandre Coslei. São mendigos, funcionários públicos, contadores, prostitutas, enfim, pessoas como todos nós, em qualquer cidade - apesar do Rio de Janeiro ser cuidadosamente exaltado e descrito -, que mostram nossa face perturbadora, nosso lado mais soturno.

Vagando pela zona do meretrício e pelas pessoas que compõem esse mundo à parte, alguns textos causam apreensão, um certo dissabor, talvez por mostrarem de forma tão crua do que somos capazes. Ou - tão grave quanto - não somos! Há uma situação que se desenvolve durante toda a obra, não ao acaso. O espelho. Certamente é a figura mais constante. Nele, alguns não se reconhecem, outros veem-se primitivos, outros ainda fascinados e orgulhosos, além dos que o encaram como se investigassem algo. Sabendo que a única função, digamos, "básica" de um espelho é refletir nossa própria imagem, não é difícil concluir que é exatamente disso que os contos tratam: de nós mesmos, vistos por um prisma intimista e peculiar, gerando aquilo que a literatura deveria sempre proporcionar - catarse.

Há outros aspectos a ser considerados; uma delas é a surpresa, não aquela técnica condenada ao fracasso, da coisa gratuita e desnecessária - como ficarmos escondidos atrás de uma porta para fazermos "buuu" a quem passa -, mas a que dá vida, consistência e razão à história, que acontece de maneira espetacular e é desvelada aos poucos, com talento e precisão. O melhor exemplo pode ser lido no conto-título. Outro fator a ser considerado são as narrativas feitas em primeira e terceira pessoa, de maneira tranquila e consistente. Como narrador, temos até mesmo um livro, isto mesmo, um livro, contando uma história, mas que não é a dele.

Já que não vou conseguir ser breve como gostaria, aproveito para comentar um detalhe extremamente importante, que é a roupa, o traje, a vestimenta de tantas e tantas vidas retratadas na obra, que nada mais é do que a linguagem: bela, elegante, correta e generosa. Traje de gala. Poderia falar de tantas outras peculiaridades, como da riqueza psicológica das personagens, ou ainda citar os textos de que mais gostei - como “O Homem que não existiu”, por exemplo - ou títulos, como o citado há pouco, mas em vez disso tudo, somente mais três detalhes: primeiro, o livro é imperdível; segundo, que uma narrativa longa deve estar chegando, sem dúvida, pois Coslei tem ainda muito o que contar; e o terceiro - em tom de confissão - é que Vila Mimosa deve ser um local interessantíssimo. Gostaria de conhecê-la ainda mais.

Talvez no romance?

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Esta resenha foi publicada originalmente no site Literatsi.

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SAIBA MAIS SOBRE A VILA MIMOSA:

A Vila Mimosa é uma das mais famosas áreas de prostituição da cidade do Rio de Janeiro. A Vila Mimosa é quase centenária. Nasceu com o desembarque de mulheres do leste europeu em fuga da Primeira Guerra Mundial, pobres e sem os maridos. O primeiro local foi a Zona do Mangue, próxima à atual Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio. As polacas, como eram conhecidas, misturaram-se às nativas ao longo dos anos, até desaparecerem. Foram perseguidas e mudaram quase uma dezena de vezes de logradouro, à medida que a cidade se modernizava. A prefeitura do Rio precisou de uma das instalações, e acabou removendo todas as prostitutas para a Rua Sotero dos Reis Praça da Bandeira. LEIA MAIS AQUI [A íntegra deste texto sobre a Vila Mimosa está em Wikipédia - a enciclopédia livre].

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Beto Canales, 47, é colaborador de Tertúlia. É eterno estudante de literatura, cinéfilo apaixonado e, também, assumido aprendiz de crítico de cinema. É autor de A vida que não vivi (Multifoco), lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009. Escreve no blog Cinema e bobagens, de onde - com autorização do autor - o texto acima foi retirado, e é torcedor fanático do Internacional de Porto Alegre. 

24/04/2010