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Um caracol no labirinto / literatura brasileira, CristovãoTezza, Trapo

Renato Alessandro dos Santos

Manuel é um professor aposentado da universidade federal que, certo dia, vê entrar porta adentro um furacão chamado Izolda, Izolda Petroski. Ela não invade apenas sua casa; invade sua vida. Nas mãos, um presente para Manuel: um emaranhado de textos (poemas, cartas, projetos etc.) de um poeta rebelde chamado Trapo, que se suicidou com um tiro, no quarto de pensão onde morava. Izolda é a dona da pensão, e o que ela oferece a Manuel é a oportunidade de sua vida: pôr ordem no caos que é a obra bruta de Trapo, recolhida por ela logo após a morte do poeta.

ALGUNS MODOS AVULSOS DE ASSASSINAR A POESIA

[...]
De pequeno conheci a Poesia
uma balzaquiana elegante, sorridente, lúcida e vaga
com um anel no dedo.
Meu Deus, que coisa linda!
Secretamente lhe mandei bilhetes
pedi em casamento
marquei encontro.
Reticente, me afagou os cabelos, me deu um beijo na testa.
(Era na boca que eu queria
um beijo de língua, feroz!)
Joguei futebol, tirei nove em português, oito vez cinco quarenta.
Fiquei velho, mudei o mundo, instaurei o comunismo
enchi os cornos de pinga
entrei para o Banco do Brasil
E ela veio de novo, madrugadinha.
Que mãos pálidas, que transparência, que sutileza!
Falava francês, a desgraçada!
Sentamos num bar.
Verde que te quero verde
Não serei o poeta de um mundo caduco
Mas que seja infinito enquanto dure
Senhor Deus dos desgraçados
As armas e os barões assinalados
Ah que saudades que eu tenho
Ora direis, Paulicéia Desvairada, rua torta, rua morta
E ela ali, deusinha vagabunda e arrogante
Vou-me embora pra Pasárgada
Fui lhe metendo a mão nos peitos
Erguendo a saia de seda
Vou estuprar a Poesia
Que alegria!
E eis que ela me foge, bateram as doze horas
Fiquei com o papel em branco.

Mulher difícil, a Poesia.
Eu de calça Lee, ela musa grega.
Vênus de milo, romântica desvairada
Solteirona neurótica cheia de pasta na cara.
Quem ama não esquece.
Vinha em sonhos, traiçoeira, brincava de 31
Fazia-se maçã do éden, funcionária pública
Manequim de propaganda.

Sou Jack o Estripador, lhe arranco a meia da coxa
Enforco-a sobre o colchão
Lhe encho a cara de porrada.

Num banco de praça vou lhe cantando sutil
Sou um gênio da gramática
Ataco de conjunção, propósito, verborreio, substantivo com arte
Vou de régua e de quarteto
Rimo paixão e turbilhão
(vem cá, minha gatinha...)
Ergo os braços com ênfase
(me beija a boca, doçura)
Soneteio, eclogueio epopeio
Ela me abraça quentinha
Mas eis que passa um velho e lhe leva
Maldito Carlos Drummond de Andrade!
[...]

Não poderia existir pessoa no mundo mais diferente de Manuel do que Trapo, a não ser Izolda. Se Manuel é apolíneo, Trapo é dionisíaco; se o professor é cosmos, o poeta é o caos escancarado e ousado e magnífico, um Rimbaud antes do silêncio que sentenciou sua morte. Quando Izolda irrompe na vida de Manuel, com Trapo a tiracolo, o professor não está nem um pouco disposto a encarar o desafio de organizar a obra de um sujeito que ele não conheceu e que, aparentemente, nada tinha de genial, como Izolda tenta lhe mostrar, do alto de sua ignorância e vulgaridade. Mas aos poucos, Manuel começa a ler o que Trapo deixou. Tudo muda. E o interesse do professor em publicar um livro desse autor desconhecido e intempestivo passa a ser a motivação que, aos 60 anos, lhe devolve a juventude de espírito há muito perdida.

— a poesia não é rima
Não é forma
Não é metro
Não é papel cuchê de primeira
Não é assunto
Não é necessariamente música
Não é estrofe
Não é um profundo mergulho na individualidade humana
Não é uma borboleta voando
A poesia não é nada.
Ou seja
Que porra é a poesia?

Conclusão [...]:

— como não há mais nenhum discípulo de Homero e a Grécia virou uma bosta, como os clássicos da Renascença eram muito posudos, como os barrocos faziam piruetas, como os árcades só cuidavam de ovelhas, como os românticos morreram todos tuberculosos, como os parnasianos eram a última raspa do tacho da boçalidade acadêmica, como os simbolistas compensavam a falta de assunto com Iniciais Maiúsculas, como os modernistas envelheceram, como os concretistas, práxis, poetas-processo e suas cinco milhões de dissidências cooptaram todos pelas agências de publicidade:
ESTAMOS LIVRES!
HIP! HIP! HURRA!

É o quarto romance de Cristóvão Tezza, o festejado autor de O filho eterno (2007). Trapo foi publicado em 1988 e fez circular o nome de Tezza como “dono de uma narrativa saborosa e envolvente” (Veja), de “rara competência” (O Globo), além de ser também “uma boa surpresa” (Jornal do Brasil). A história passa-se em Curitiba; o ano é 1979. Os personagens centrais têm complexidade suficiente para atiçar o leitor, como Manuel, Trapo, Izolda e mesmo Hélio, esse amigo de boemia de Trapo, feio que dói, alcunhado Heliusfante pelo poeta. Há um bom humor que atravessa a narrativa do início ao fim, o que dá leveza à travessia de Manuel, retirado de sua aposentadoria tranquila para cair, a contragosto, no epicentro da vida tumultuada de Trapo. 

Metalinguagem 

No romance, é lá pela página 127, da sexta edição, que o leitor se dará conta de que já pode estar lendo o resultado final do trabalho de Manuel. Numa conversa com Hélio, embebida em vodca, o amigo do poeta sugere ao professor que ele escreva um romance em que Trapo surja revigorado, da sarjeta:

— O senhor não sente, professor, a coisa extraordinária que está acontecendo na sua vida?
— O quê, por exemplo?
— Esta história porreta de os originais do Trapo virem parar na sua casa. O suicídio dele. As coincidências. Eu entrando no meio. Porra, isso é um romance!
Dei mais um gole. Implacável, a vodca já me entontecia.
— E daí?
— Ué, em vez do livro ser do Trapo, o livro fica sendo seu.
— Que história é essa? Um velho aposentado como eu assinando essa baboseira juvenil? Além de ser plágio, não faz sentido. Absurdo!
— Espere, professor. Deixa eu acabar. Por que o senhor, que sabe escrever e entende de literatura, não faz um relato do que aconteceu com o senhor mesmo? Conta a história dos originais, da Izolda, até eu posso entrar aí. Desse jeito o pessoal iria entender o Trapo. Como um romance — e a ênfase: — um puta romance!
Fui mordido pela mosca azul, uma alfinetada certeira. Bebi mais vodca.

É uma piscadela do narrador ao leitor? Sem dúvida, afinal, o que se lê desde o início do romance é a história de como os originais de Trapo vieram parar nas mãos de Manuel, levados por Izolda; até Hélio entra na história. Muito bem, Cristovão. E, segundo sugestão de Hélio, como entender a personalidade arredia de Trapo? Mais uma vez, é a carpintaria literária muito bem resolvida de Tezza que dá vazão à verborragia flamejante de Trapo. Como? Engenho: ao intercalar sucessivamente passagens da obra de Trapo com o andamento da narrativa, o leitor se dá conta do que se passava pela cabeça do jovem suicida, pois o ponto de vista alterna entre Trapo e Manuel, numa multiplicidade narrativa bem ao gosto de Tezza.

Trapo, o romance, começa com Trapo. Eis o poeta:

Tentei de novo falar com você esta madrugada, mas o quintal estava povoado de lobos ganindo contra minha sombra. As feras da tua família são estúpidas o tempo todo, numa insistência que me impressiona. Vou matar todos aqueles bichos, aquelas cadelas negras, apesar da admiração que nutro pelas bestas puras. É um cerco medieval, minha musa de castelo. E como de tudo faço literatura, graças à fidelidade com que desprezo a vida e conforme minha incapacidade aberrativa de viver, acabei achando bonito aquele espetáculo de urros e pulos, de dentes e unhas na escuridão da casa, tudo para preservar a imaculada jovialidade dos teus dezesseis anos. Reconheço: o teu pai, esse monstro de asas de morcego e orelhas de burro, é mesmo um homem sutil, joga com as minhas armas, e mal sabe.
E como, para completar, havia lua cheia — das derramadas — sentei no meio-fio e puxei dois charutos de maconha, com os cães latindo atrás de mim num furor melancólico.

A musa adolescente chama-se Rosana. É para ela que Trapo escreve cartas e poemas, revelando um amor adolescente que, como o de Romeu e Julieta, paira - parafraseando o bardo inglês - entre o gatilho e a pólvora.

Produções Trapo apresentam: RETRATO FALADO DE UMA MENINA LEVADA DA CASQUEIRA. Ficha semiológico-policial zen-tesúdica. EPÍGRAFE: A paixão começa pelo físico e vai se intrometendo cabeça adentro feito trepadeira. NOME: Rosana. VOZ: rouquídea gargantulínea. DENTES: sídero-safadentos na ponta da orelha como certas plantas. LÍNGUA: fruta-do-conde. SEXO: um tambor batendo de noitezinha no coração da gente. MÃOS: regidas por um duende. ALMA: bicho do mato. CORPO: polpa. ALTURA: 1,60m e os píncaros da glória. IDADE: 17 anos? OLHOS: as asas da graúna. IMPRESSÃO DIGITAL: um caracol no labirinto. SINAIS PARTICULARES: timidez que desabrocha num silêncio triste alucinadamente afetivo. A vida é um brinquedo difícil. Vez em quando, um choro sem explicação. É intocável. Olhando de certo jeito, ela sou eu. ANTECEDENTES CRIMINAIS: filha única de pai carrasco e mãe passiva. Proteção de cárcere, de uma impiedade pia. Casa do enxofre e do pecado, nascer foi um erro, viver, um crime.
[...]

As circunstâncias da morte de Trapo nunca ficam claras, mas o trabalho detetivesco de Manuel, em busca de respostas para seu romance, sugere que o suicídio do poeta tem a ver não apenas com a proibição dos pais de Rosana ao relacionamento dos dois, mas também com um filho que, no horizonte, surge de repente, colocando um ponto final trágico à história. Não deveria ser assim, claro, mas é na morte que a tragédia encontra seu fim.

Referência Bibliográfica

TEZZA, Cristovão. Trapo. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. 
 

 

11/04/2010