)Futebol(

O silêncio da partida /

Renato Alessandro dos Santos

Ir ou não ir ao estádio assistir a uma partida de futebol? Eis a questão. Em casa, ver um jogo pela TV significa ter a narração de Milton Leite e os comentários de Maurício Noriega, ambos do Sportv, acepipes à disposição – com a geladeira a poucos metros de distância, cervejinha – e, por favor, cervejão, não! -, segurança, economizar $$$, afinal, pagar 60 reais para ficar na arquibancada é absurdo etc., etcetera. Por outro lado, ir ao estádio ver uma partida de futebol com o seu time do coração é um acontecimento admirável: seja porque aqueles jogadores que existem apenas na TV e na mídia estarão ali, diante da torcida, com a aura que Walter Benjamin dedica aos eventos que acontecem uma única vez, como um pôr-do-sol que, mesmo repetindo-se a cada fim de tarde, nunca será o mesmo do dia anterior.

Não poderia deixar de ver o Santos jogando em Ribeirão Preto contra o Botafogo e lá fui eu, estrada afora, bem contente, embora gripado. Na noite anterior ao jogo, com uma daquelas gripes que deixam o corpo e a cabeça em ponto-morto, fui obrigado a tomar uma injeção. Não poderia perder o jogo do Santos. Nem bem Júlio chegou, o aplicador oficial de injeções aqui em casa, já fui mostrando as veias saltitantes de meu braço musculoso. “Nada disso”, ele disse. “Essa injeção é no bumbum”. Jesus! O que não somos obrigados a fazer pelo nosso time! “Tudo bem, Júlio”, resmunguei, olhos marejados de gripe, “mas olhe lá o que vai aprontar aí atrás, rapaz, porque – mostrei a manzorra – eu lhe dou um tapão!”. Lembrei da infância, quando o pai me levou à farmácia e, diante da agulha de filme de terror, saí correndo rua afora, gritando, com o farmacêutico em meu encalço dizendo que não ia doer nada. Sei. Todo criança já ouviu essa história antes.

O que importa, na verdade, é que a injeção deu certo. Estava me sentindo bem melhor para ver o jogo em Ribeirão. Tudo bem que Robinho, Wesley e Neymar não jogariam, mas ver de perto a leveza insustentável de Paulo Henrique Ganso e as jogadas de Arouca, Marquinhos, Felipe, André, Madson e Edu Dracena já valeria a pena. Como não tinha ingresso, cheguei ao estádio com duas horas de antecedência. O estádio Santa Cruz, do Botafogo, fica num lugar de fácil acesso, apesar de que, a pé, subir e descer aquelas ruas que nos levam até ele não é algo para qualquer um, ainda mais a alguém com gripe. Minha esperança era pagar meia-entrada, mas àquela hora minha carteirinha de estudante não serviu para nada. “Se você quiser, há meia-entrada ainda para a torcida do Botafogo”, disse a moça da bilheteria. “Não, obrigado”, resmunguei. “Prefiro pagar 60 reais e ficar no meio da torcida do Santos”. Imagine levar um soco de um botafoguense com raiva de um santista que se levanta sempre que a torcida contrária está sentada. Mas não era apenas isso. Não dá para ir a um estádio ver seu time jogar e, lá, ficar no meio da torcida adversária. Não mesmo, não é?

Como sabia que chegaria mais cedo, levei livro, revista, caderno de anotações, caneta, câmera fotográfica, gravador digital, mas, justamente o mais importante, eu não tinha, afinal, como ir a um estádio e não levar um radinho de pilha? Eu tinha o celular da amada, mas havia esquecido os fones de ouvido, ou seja, nada de narração da partida. Mas o pior ainda estava para acontecer. Depois de andar muito, rua acima, rua abaixo, carregando toda minha bugiganga, cheguei à entrada do estádio reservada à torcida do Santos. Uma fila de policiais me aguardava. Apaupa daqui, apaupa dali. “Abre a bolsa”. Abri. “O que é isso?!”, perguntou o policial. “Uai, é um livro”. “Ih, rapaz, não pode entrar com livro no estádio”, ele me disse. “Como assim?!”, eu disse a ele. “Não pode. Vai que você resolve jogar esse livro no juiz”. “Como assim?!”, argumentei de novo, ainda com bom-humor. “Por que eu iria jogar um livro no juiz?”. “(...)”, ele retrucou, com cara de paisagem e tudo. Você já imagina o desfecho. Sem choro nem vela, lá fui eu de volta ao estacionamento, rua acima, rua abaixo. Deixei tudo lá. Só peguei a câmera, uma caneta e três folhas do bloquinho de papel. Volto ao estádio e, no meio do caminho, vejo o ônibus do Santos chegando ao estádio, com batedores e tudo. Confesso que me deu vontade de sair correndo atrás dele, mas me lembrei que (1) estava com gripe e (2) já não tinha mais idade para isso. Uma pena. Depois de andar muito, muito, muito, entrei no estádio (“Ah, agora sim”, disse o mesmo policial) e me sentei entre os torcedores santistas. Oba. Passou um sujeito vendendo água gelada. “Uma para mim, por favor, amigo”, pedi. “Quanto é?”. “Quatro reais pra você, amigão”. Ainda bem que ele era meu amigão. Imagine se não fosse. Pagar R$ 4,00 por um copo de água gelada é um disparate, não é? Se ainda fosse uma cervejinha...

Começo a me enturmar. Conheço um pai que veio de Bebedouro com seu filho e com um amigo do filho. Outros vêm de longe, também: Piracicaba, São Carlos, Araraquara, Uberaba. O torcedor santista está realmente radiante com essa safra 2010. O estádio, aos poucos, começa a ficar cheio. Conto os minutos, mas os ponteiros do relógio não andam. O helicóptero da Polícia Militar sobrevoa o estádio. Queria ligar ao meu pai e dizer que estava ali, mas acabei esquecendo o celular no carro. Raios. O juiz e os bandeirinhas aparecem para se aquecer. O que leva uma pessoa a ser bandeirinha? Não sei, mas ver a bandeirinha Maria Elisa Correia Barbosa exercitando-se de um lado a outro foi hidratante. Aos poucos, os jogadores dos dois times, ainda sem uniformes, começam a se aquecer também. Eu sei que Madson é pequeno. Mas dali de onde estava, menor ainda, ele tinha o tamanho de uma ervilha. Olho para o relógio. Nove horas. Oba! O jogo, finalmente, iria começar.

Expectativa frustrada

Ir ao estádio ou ver o jogo em casa? Com cada time em cada lado do campo, não consigo ouvir o apito do juiz. A partida inicia-se. Acostumado a ver o Santos pela TV, no estádio Santa Cruz, novamente sinto falta da narração de Milton Leite e dos comentários seguros de Noriega. Com os uniformes dos times impedindo que se veja o número nas costas dos jogadores, o radinho de pilha faz falta. Claro que é possível identificar os jogadores santistas, mas cadê a narração?! Os comentaristas do Sportv estavam ali, mas não os vi, também. É uma partida silenciosa, ou melhor, seria, não fosse a algaravia das torcidas. Aliás, os torcedores botafoguenses estão de parabéns, pois não pararam quietos um minuto sequer, para desespero de um menino de dez anos que, atrás de mim, gritava a todo tempo que a torcida santista estava muito quieta, perto da torcida adversária. Uma vergonha, eu sei. Mas não era bem assim. Nos momentos em que a torcida ficava eufórica, o barulho era tanto que meu ouvido esquerdo, por causa da gripe, doía. Não podia gritar junto, pois as cordas vocais arrebentariam, mas o jogo só estava começando.

(Preciso dar aula agora. Continua já, já...)

(1 dia depois...)

Todo torcedor santista esperava uma apresentação de gala do time da Vila, mas não foi o que aconteceu. O Botafogo preocupou-se mais em defender do que em ferir o adversário, como diz mestre Ronaldo, e a partida ficou truncada, embora bastante disputada. Havia muito em jogo. Além do mais, não bastasse a boa fase dos dois times, havia a rivalidade entre as duas cidades. Nos anos 60, um jogo entre as duas equipes terminou 11 a 0 para o Santos. Pelé, nessa ocasião, fez oito (!) gols. Uau! No Santa Cruz, a expectativa era a de uma possível goleada do time da Vila. Afinal, os diabretes vêm fazendo golos de montão: 9 a 1 contra o Ituano, domingo passado; 10 a 0 pela Copa do Brasil, contra o Naviraiense. Todo santista, ultimamente, vem pisando em nuvens. 

Bem no começo do jogo, Ganso fez um gol, mal anulado pelo juiz. Daí em diante, nada de arte, por dois motivos: a dimensão enorme do campo e a forte marcação do Botafogo. Perto do final do primeiro tempo, Ganso chuta forte no canto esquerdo do goleiro. 1 a 0. Um minuto depois e lá vinha o Botafogo para empatar a partida. No segundo tempo, o Santos voltou mais bem armado e fez o segundo gol, com Marquinhos, aos 12 minutos. Dois minutos depois, lá vinha o time de Ribeirão Preto empatar de novo a partida. Comentário na torcida do Santos: “Tomara que o Santos faça o terceiro gol só aos 48 minutos, porque aí não dará tempo do Botafogo empatar”. Hê, hê. Mas, poucos minutos depois, aos 18, Marquinhos novamente ampliava para o Peixe. 3 a 2. Quando todos os santistas já acariciavam seus pés de coelho imaginários, para dar sorte ao time e não sofrer outro gol de empate, Madson fazia o quarto gol. Mas estava impedido, para desespero da mãe do juiz que, por causa da profissão do filho, foi destratada pela torcida santista. Minutos depois, o atacante André sofreu pênalti, mas o juiz não marcou. Mais uma vez, a pobre mãe do juiz era lembrada em campo. Aos 43 minutos, foi a vez do Botafogo ter um gol anulado – o que fez a torcida botafoguense xingar o juiz (e sua mãe também). Com o jogo em sua reta final, Zé Eduardo, que tem entrado bem em cada jogo, fez o quarto gol santista, numa bela jogada em que driblou um zagueiro e o goleiro. 4 a 2 para o Santos. Final de jogo e palmas para esses meninos que têm encantado não apenas o torcedor de seu time, mas todos aqueles que gostam de futebol fantasista, como diz Tostão.

Cheguei em casa, enrolado numa bandeira do Santos e com um chapeuzinho preto e branco, tipo bobo da corte, na cabeça. Queria encontrar o filho acordado, para convencê-lo de que ainda era tempo de trocar seu porco amiguinho pela baleia assassina, mas o guri já dormia. Antes, havia pedido à amada que gravasse o jogo para mim. Foi o que ela fez. Por volta de três e meia da madrugada, acabava de ver a vitória do Santos sobre o Botafogo pela TV, com os comentários de Noriega e a narração divertida e personalíssima de Milton Leite.

Santos sempre Santos.   
 

26/03/2010