)Cinema(

144 minutos de brutalidade /

Beto Canales

Brutalidade, esse é o tema central de A fita branca.

Antes de comentar o filme, porém, vou atrever-me a dissertar sobre a sinopse, que fala de "estranhos eventos que acontecem num pequeno vilarejo ao norte da Alemanha, pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial". Estranhos eventos? Fui ao cinema na expectativa de presenciar tais eventos e medir suas estranhezas. Fiquei lá, angustiado por 144 minutos e nada. O filme terminou e absolutamente nada que não fosse comum, trivial. A obra desfila o tempo todo o quanto os habitantes de uma pequena aldeia, como uma amostragem, representando claramente todas as instâncias de uma sociedade, são rudes, estúpidos, ruins, sádicos, egoístas, brutos e por aí afora. Causa alguma estranheza esses adjetivos aplicados para nossa parva civilização? Não! Claro que não. Mas ruim, limitado e errado somente a sinopse.

O filme, preto & branco, um excelente artifício que ajuda a construir o clima austero e de pobreza absoluta (material e "espiritual"), tem um aspecto interessantíssimo: ele é feito de cenas entrecortadas e dispostas durante toda a exibição, quase isoladas umas das outras, com começo, meio e fim bem delineados, ao contrário do todo. Um pequeno fio invisível, nutrido pelo que se vê em comum em todas elas, nada além de sentimentos doentios e dos adjetivos descritos anteriormente, costura tudo de maneira magnífica, instaurando uma boa noção de conjunto.

Usando essa inovadora técnica, possivelmente, A fita branca seja o filme que trata de maneira mais crua a imbecilidade e, principalmente, a brutalidade das relações familiares. Fosse uma aldeia mostrando canibalismo, chocaria menos do que, por exemplo, uma das excelentes cenas onde se vê uma porta fechada e ouve-se apenas o som de um pai/pastor espancando os próprios filhos. Ou ainda uma criança baixar a cabeça e os olhos com medo de encarar um adulto. Sabem por quê? Simples, porque nós todos, exceto aquela pequena tribo africana, não somos canibais, porém, muitos espancam, subjugam e humilham crianças por vários motivos, dentre eles, o prazer e o sadismo.

Há vários transtornos, além dos mencionados até aqui, explorados na película. Os mais chocantes e mais visíveis, como incesto, abuso de poder e crueldade, tornam tudo muito forte e marcante. Mas também há uma espécie de subtexto, uma mensagem subliminar, algo pouco visível e tão surpreendente quanto os fatos, que são as reações das pessoas diante das atrocidades. Só isso certamente já vale o filme.

Na verdade, são reações e ações muito complexas para serem tratadas em poucas linhas. Para justificar, nada melhor que mencionar as quase duas horas e meia que passam rapidamente. O filme realmente não poderia ser menor.

Todas as cenas, repito, possuem seu próprio fechamento, ao contrário do filme que não tem uma finalização formal, além de deixar em aberto muitos pontos que, fosse uma obra hollywoodiana, seriam vitais, mas que não fazem falta alguma para o cinema europeu. E essa ausência do tão desejado "the end" certamente foi planejada, afinal, continuamos os mesmos em pleno 2010. Essa história, infelizmente, parece não ter fim.

Não acho que tenha sido injustiça A fita branca não ter ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas tenho certeza de que ele mereceria uma estatueta também.

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Beto Canales, 47, é colaborador de Tertúlia. É eterno estudante de literatura, cinéfilo apaixonado e, também, assumido aprendiz de crítico de cinema. É autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009. Escreve no blog Cinema e bobagens, de onde - com autorização do autor - o texto acima foi retirado, e é torcedor fanático do Internacional de Porto Alegre.
 

21/03/2010