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Adiós, amigos... /

Renato Alessandro dos Santos

Não bastasse a morte de Corey Haim, na quarta-feira passada, 10 de março, a notícia do assassinato a sangue frio do cartunista Glauco e de seu filho, anteontem, 12 de março, deixou todo mundo estarrecido. Pai e filho foram assassinados com nove tiros, de madrugada, na casa onde moravam em Osasco. Para ser sincero, fiquei arrasado, como todos que não podem fazer nada, além de lamentar a perda precoce de pessoas que, infelizmente, não mereciam ponto final tão trágico. Nos dois casos, as circunstâncias de morte ainda não estão claras.

No caso de Haim, o ator canadense já havia cutucado a onça ceifadora anos atrás, quando quase morreu em decorrência do uso sem freio dessas drogas que devoram a pessoa, e sua morte precoce, de certa forma, no cinema, já era anunciada há tempos; afinal, desde Dream a little dream, de 1989, nenhum outro filme com o ator despertou a crítica, e seu nome repousava, desde então, no limbo glacial dessas geladeiras que são habitadas por artistas, quando não estão no palco. O que não significa criticar o modo de vida de Haim; pelo contrário, afinal cada um vive como acha que deve viver. Ainda bem. O lamento é pela ausência de um ator que não vimos envelhecer, como tantos outros atores cujas rugas da idade vimos nascer e crescer nas telas de cinema. Corey Haim tinha tudo para dar certo, como se diz, mas, por culpa de algum desses trasgos que mexem os pauzinhos do destino, sucumbiu, jogando sua carreira no lixo.

Haim foi festejado por minha geração. Mas, vez ou outra, más notícias anunciavam o cadafalso, alertando para o envolvimento famigerado do ator com drogas. E foi assim: na década de 90, o cinema perdia esse ator para uma roleta russa de vício perdulário, com direito ao típico inchaço sedentário & junkie que, enredado, o corpo não consegue deixar. Até agora ninguém sabe muito bem o porquê de sua morte. Os jornais noticiaram uma overdose acidental. Francamente, sempre achei que toda overdose só podia ser acidental. Mas, de qualquer forma, Haim não conseguiu dar a volta por cima e cumprir a promessa de se tornar um grande ator, como Mickey Rourke foi capaz de fazer consigo em O lutador, por exemplo. Se voltasse aos meus 17 anos, certamente, estaria numa sala de cinema, e Corey Haim seria uma das estrelas extasiantes daquela época. Nos anos 80, filmes como A inocência do primeiro amor (1986), The lost boys (1987), Sem licença para dirigir (1988) e o já mencionado Dream a little dream (1989) trouxeram Haim como um adolescente fustigado de sagacidade. The lost boys é seu filme mais conhecido e traz o ator no papel de um garoto que chega a uma cidade onde há uma gangue de vampiros, os garotos perdidos do título.

Glauco

Já em relação à triste morte de Glauco Vilas Boas, 53, e de seu filho Raoni, 25, a sensação de raiva, impotência e tristeza, melancolicamente, transforma-se num lamento profundo diante de violência tão brutal contra pai e filho, derrotados por um desses sujeitos cujo nome, como nas tradições e crenças antigas, não merece nem ser lembrado. É mais um capítulo da barbárie diária a que estamos sujeitos toda aurora, quando abrimos os olhos e levantamos da cama, cientes de que outro dia surgirá na manhã seguinte. Mas nem sempre. Glauco e seu filho não terão outro dia, tudo porque um sujeito estava com o diabo na cuca. 

  Los três amigos   

A morte de Glauco e de seu filho é de uma tragicidade inimaginável. Como um artista que sempre fez seu público rir pode morrer de forma tão trágica? O autor do crime, um rapaz de 24 anos, nascido em berço esplêndido, continua desaparecido; mesmo que seja preso em breve, nada irá reparar perda tão significativa ao universo das histórias em quadrinhos que, no Brasil, tinha em Glauco um de seus heróis. Afinal, da cabeça do cartunista surgiram Dona Marta, Geraldão, Geraldinho, Nojinski, Zé do Apocalipse, Ozetês e outros personagens que faziam a alegria dos leitores que acompanhavam suas tirinhas diárias na Folha de S. Paulo, especialmente, sua participação em Los três amigos, quadrinhos feitos a seis mãos com Angeli e Laerte. Além de cartunista, ele criou a igreja do Santo Daime, Céu de Maria, que dirigia.  

A morte encerra tudo, escreveu Tennyson no poema “Ulisses”, mas o legado de um artista continua com sua obra, sempre insubstituível. Nesses últimos dias, infelizmente, o mundo do cinema e dos quadrinhos está mais triste, enquanto a vida, (...), continua célere e cheia de som e de fúria.

P. S.: Todos os desenhos desta página estão no blog Universo HQ; é uma homenagem de muitos cartunistas que admiram o trabalho de Glauco. 


 

14/03/2010