)Entrevistas(

"Nua?!", surpreende-se Lourenço Mutarelli / Lourenço Mutarelli, O cheiro do ralo, Jesus Kid, História em Quadrinhos, beatniks, William Burroughs, Anti-herói americano

Renato Alessandro dos Santos

Lourenço Mutarelli é um sujeito calado e muito simples. Pode não parecer, mas o autor de HQ’s cultuadas e obras literárias idem – além de ator de cinema – não tem nada de extravagante ou excêntrico; ele o é, certamente, mas durante a ½ hora que Tertúlia ficou ao seu lado, Mutarelli, muito mais do que um sujeito esquisito, pareceu uma pessoa triste, solitária, tímida. Ao menos era esse o estado de espírito do autor na tarde de sexta-feira, 26 de junho de 2009. Era a 9ª edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Tertúlia chegava à antepenúltima entrevista – ainda haveria as conversas com Marcelo Mirisola e Michel Laub, uma vez que José Hamilton Ribeiro e Thiago de Mello, poeta amazonense que encerrou a Feira, não puderam ser entrevistados por Tertúlia por causa do assédio do público.

Logo após atender a cada um dos fãs, do lado de fora do Theatro Pedro II, e ao lado de uma lata de lixo que tinha tudo a ver com Lourenço Mutarelli – e isso é um elogio –, nos sentamos na escadaria do teatro e, enquanto um menino fazia as fotos da entrevista, conversamos sobre fanzines, beatniks, quadrinhos, Barton Fink, literatura, Jesus Kid, livro e filme O cheiro do ralo, Amores expressos – o projeto da Cia. das Letras em que cada autor vai a uma cidade (Mutarelli foi a Nova York) para escrever uma história de amor – e outros temas ligados a esse sujeito que, por onde passa, é elogiado, seja migrando dos quadrinhos para a literatura, ou mesmo atuando no cinema como ator.

Sentado na escadaria do Theatro Pedro II, Mutarelli chamou minha atenção para o menino que tirava as fotos. “Rapaz, cadê o garoto?” Só faltava o fotógrafo free-lancer de Tertúlia desaparecer com as fotos e, pior, com a câmera que, mesmo tosca, era uma ferramenta indispensável para aqueles dias atribulados da Feira do Livro. “Só um minutinho, Mutarelli”, disse, e lá fui ao encontro do menino, antes que ele desaparecesse. Ele queria tirar algumas fotos panorâmicas da praça, do teatro, dos amigos. Bom menino. “Não se esqueça de me devolver a câmera”, falei. “Pode deixar” – respondeu –, ao mesmo tempo em que uma pulga veio sentar-se atrás de minha orelha.

Voltei à entrevista. Cachaça, dono do Cineclube Cauim, apareceu um pouco depois para chamar Mutarelli para uma rodada de chope & acepipes no Pinguim. “Está todo mundo lá, te esperando”, disse, e olhando para mim, “Se quiser, apareça por lá, também”. Agradeci. O cinema de Cachaça fica no centro de Ribeirão. Passa filmes de arte com mais frequência do que filmes de Hollywood. A personalidade jovial do amigo de Xico Sá, dono do cineclube, deixa transparecer que a tertúlia na choperia mais famosa do país iria longe. Voltamos à entrevista. “Moço, a câmera”. Era o menino que voltava de sua sessão de fotos. Fiquei feliz em revê-lo e lhe agradeci pelas fotografias que tirou da entrevista -- e que você vê esparramadas nesta página. Com o sol de Ribeirão Preto chicoteando nossas costas, já era hora de encerrar a conversa, mas não sem antes eu cometer uma mancada. Constrangedora.

Meses antes, após assistir ao filme e aos extras do DVD O cheiro do ralo, miseravelmente, confundi uma atriz do filme com a esposa de Mutarelli e me saí com esta: “O que você achou das cenas de nudez da sua mulher no filme?” Ele me olhou confuso. “Minha mulher saiu nua no filme?!”, disse calmamente. “Não saiu?!”, retruquei. Não, não saiu, conferi mais tarde, revendo o DVD. Que vergonha! A memória já não é mais a mesma. Meninos aproximem-se: “Nunca deixem de fazer o dever de casa!”. É um imprescindível conselho. Mas a resposta de Mutarelli, mais uma vez, confirmou sua gentil personalidade: “Se saiu, também, não tem problema algum”, disse. “Tudo pela arte”.

A seguir, ouça a entrevista feita com Mutarelli nas escadarias do Theatro Pedro II. No início, o áudio assusta um pouco, por causa dos ruídos, mas em seguida - logo que a entrevista começa mesmo - tudo se normaliza. Aquele abraço, Mutarelli.   

 


 

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07/03/2010