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US$ 2Ø12, 4T1V1D4D3 P4R4NØRM4L / Atividade paranormal, O dia depois de amanhã, 2012

Beto Canales

Não sou muito simpático a transformar tudo em números. Acho isso uma atitude enfadonha, desnecessária e, pior, simplista demais. Algumas vezes, porém, é vantajoso. Pois, então, vamos lá: 2012 (já no título começam os algarismos) custou cerca de 260 milhões de dólares para 158 minutos de exibição. É, sem dúvida, o maior - em vários sentidos - de todos os filmes-catástrofe já lançados nesses últimos tempos. A obra traz nomes para lá de interessantes, como Roland Emmerich na direção (bastante experiente, tendo assinado obras como 10.000 AC - eles novamente - e Um dia depois de amanhã), Danny Glover (veterano que participou de mais de trinta filmes) e John Cusack (Shanghai e 1408 - mais uma vez) e em cinco semanas faturou US$ 155 milhões, somente nas salas do Tio Sam.

Esquecendo por um momento os números, o filme é uma sequência assustadora de mentiras bem-feitas. Se existisse o prêmio Maior Atochada de Hollywood, certamente ele seria vencedor. Disparado. Algumas cenas lembram as histórias em quadrinhos de anos atrás, não só pela coisa do fantástico e do improvável, mas também pela plasticidade. Enfim, vamos ao cinema, mas para quê? Quando compramos ingresso - principalmente para esse gênero, considerado por muitos um sub-cinema -, firmamos um pacto, um acordo invisível e sem assinaturas, que permite que carros atravessem prédios envidraçados, enquanto esses desabam como legos mal colocados, ou corridas malucas entre crateras e fendas gigantescas, salvando todos aqueles que são interessantes para a história. Enfim, pagamos para ver algo "fantástico", e os maravilhosos efeitos especiais nos trazem isso com esmero. Eu diria que beirando a perfeição, sem medo de ser piegas ou exagerado. 2012 tem os melhores efeitos já vistos. Acredito que o fraco enredo e os diálogos cheios de patetices não chegam a atrapalhar, porque o que buscamos nesse caso específico é exatamente aquilo que nos venderam: adrenalina e cenas de tirar o fôlego. Um detalhe que não pode passar desapercebido é o altruísmo do presidente negro dos gringos. Não é a primeira vez (e nem será a última) que fazem, ou tentam fazer, do senhor das armas da vez um verdadeiro herói. Não acredito que cinema seja o melhor lugar para panfletos.

Atividade paranormal

Voltando aos números: Atividade paranormal, com produção, direção, montagem e roteiro assinado pelo desconhecido Oren Peli e elenco sem nenhum ator famoso, conseguiu, em 99 minutos - contando uma história mais do que batida, um verdadeiro clichê do terror (gênero nada bem-visto pelos críticos) e gastando apenas 25 mil dólares - faturar mais de US$ 107 milhões nas primeiras dez semanas de exibição, somente nas salas norte-americanas. E a grande sacada para tanto sucesso é estrondosamente simples: o filme se parece com um documentário.

O protagonista recebe, já na primeira cena, a namorada (atordoada pelo demônio) mostrando a câmera nova, comprada para filmar os diabinhos. Sensacional! Daí em diante, todas as tomadas são feitas (ou pelo menos dão a impressão) com o mesmo equipamento e pelo próprio ator, que deixa a filmadora várias vezes em cima de uma mesa ou em um tripé, permitindo que ele próprio apareça.
Essa sensação de documentário (gênero que representa a realidade) fragiliza o espectador. Deixa-o suscetível ao medo. Torna-o refém. Aquele acordo que se tem ao comprar o bilhete vai para o espaço, desde o primeiro minuto.

Na verdade, esse não é um artifício novo e, inclusive aqui na nossa querida terra brasilis, foi usado no excelente policial Tropa de Elite. Mas em Atividade paranormal a inovação acontece principalmente nos ares de amadorismo na construção do filme e, claro, no uso do gênero terror.

Enfim, os números servem para mostrar várias coisas, entre elas, que cinema (como quase tudo nesse lado ocidental do planeta) é um negócio. E pode ser excepcionalmente lucrativo. Merecidamente, eu diria. Mostram, também, que vale a pena ser coadjuvante desse mundo maluco em eterna transformação, onde dois filmes com orçamentos tão desnivelados, gêneros tão diferentes e recursos técnicos absolutamente distintos "exigem" uma só coisa: que se vá ao cinema. Preferencialmente de cabeça aberta, para permitir que a magia dessa arte tão nobre participe do próprio cotidiano, pincelando a realidade com boas doses de ficção. O resultado disso pode ser um só: diversão!

Então, ao escurinho!

 

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Beto Canales, 47, é colaborador de Tertúlia. É eterno estudante de literatura, cinéfilo apaixonado e, também, assumido aprendiz de crítico de cinema. É autor de A vida que não vivi, pela Multifoco, lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009. Escreve no blog Cinema e bobagens e é torcedor fanático do Internacional, de Porto Alegre.
 

28/02/2010