)Sarau(

Nem mesmo a chuva tem mãos tão pequenas / Poesia norte-americana, e. e. cummings, Zeca Baleiro, Hannah e suas irmãs, Jorge Wanderley, Augusto de Campos

e. e. cummings

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

Tradução de Augusto de Campos

em algum lugar onde nunca estive

em algum lugar onde nunca estive, e felizmente aquém
de qualquer experiência, teus olhos guardam seu silêncio:
em teu gesto mais frágil há coisas que me envolvem
ou que não posso tocar porque estão muito próximas

teu olhar mais leve facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos,
e me entreabres sempre, pétala por pétala, com a Primavera
(por toques habilidosos, misteriosamente) abre a primeira rosa

ou se teu desejo é me fechar, eu e
minha vida nos fecharemos formosa e rapidamente
como quando o coração desta flor imagina
que a neve - cuidadosamente - está caindo em toda parte;

nada do que podemos perceber neste mundo se compara
ao poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
me compromete com a cor de seus países
e me entrega para sempre a morte cada vez que respiro

(nada sei do que te faz tão poderosa
ao me mover; mas algo em mim compreende apenas
que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim pequenas.

Tradução de Jorge Wanderley

somewhere i have never travelled, gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


Se você gostou do poema, não pode deixar de ver um trecho do filme Hannah e suas irmãs, de Woody Allen, em que Lee (Barbara Hershey) lê o poema de cummings. Lembrete: não deixe de ver o filme. Em seguida, há o clipe de "Nalgum lugar", de Zeca Baleiro, numa belíssima interpretação do poema feita pelo músico. Mais abaixo, à esquerda, é Zeca Baleiro apenas em áudio. 

Leitura do poema de cummings em Hannah e suas irmãs

"Nalgum lugar", de Zeca Baleiro

 

Referências

CAMPOS, Augusto. Nalgum lugar. Disponível em: <http://soturnaprimavera.blogspot.com/search/label/E. E. Cummings>. Acesso em: 31 jan. 2010.
CUMMINGS, Edward Estlin. Somewhere i have never travelled, gladly beyond. Disponível em: <http://soturnaprimavera.blogspot.com/search/label/E. E. Cummings>. Acesso em: 31 jan. 2010.
_______. Em algum lugar onde nunca estive. In: WANDERLEY, J. Antologia da nova poesia norte-americana. Seleção, tradução e notas de Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. pp. 158-161.
 

  • 132_Nalgum lugar.play

31/01/2010