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J. D. Salinger não mora mais aqui / O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger, Literatura norte-americana

Renato Alessandro dos Santos

O agente literário Phyllis Wesberg anunciou a morte do escritor J. D. Salinger e pegou todo mundo de surpresa. Não que estivesse esquecido aos 91 anos de idade, mas ninguém tinha notícias do escritor já há algum tempo. Avesso à vida pública, o arredio Jerome David Salinger morreu de causas naturais, na pequena e tranquila Cornish, EUA, nesta quarta-feira, 27 de janeiro de 2010. Mais do que Dalton Trevisan ou Rubem Fonseca, Salinger defendia com unhas e dentes seu exílio voluntário, dentro de sua própria casa, desde 1953. A reclusão desse homem levava às últimas consequências a ideia de misantropia. E agora ele se foi. É uma morte dolorida a todos que, na adolescência - mesmo que tardia -, se depararam com a prosa ágil, simples e sem rodeios de O apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye), de 1951, um dos clássicos da literatura norte-americana do século 20 que mais transpiram espírito adolescente.

A sentinela do abismo

O apanhador no campo de centeio foi escrito quando Salinger tinha 32 anos, durante um fim de semana em que estava de saco cheio da vida. Quem nunca ouviu falar ou leu alguma coisa sobre Holden Caulfield, o pequeno diabo de Salinger? É um personagem inseguro, insatisfeito, questionador, inconformista, inquieto e, ao mesmo tempo, doce, engraçado, autêntico e singular. É um “rebelde-vítima”, como mencionou Luiz Carlos Lisboa em seu Pequeno guia da literatura universal (1986).

No romance, Holden “conhece uma série de contratempos e desgostos na pequena cidade onde estuda”, comenta Lisboa. Então, “deixa tudo para trás e viaja para a cidade grande, onde procura amigos para encher seu tempo e talvez recomeçar a vida”. Tem apenas 16 anos. A cidade grande é Nova York, e por lá pouca coisa faz. Hospeda-se em um hotel decadente e nada acontece. Numa ocasião, chama uma prostituta ao seu quarto:

Para ser sincero, estava mais deprimido do que excitado. Ela era deprimente. O vestido verde pendurado no armário e tudo. E, além disso, acho que eu não poderia nunca fazer esse troço com alguém que passa o dia inteiro sentada numa porcaria dum cinema. Acho que não poderia mesmo.
Ela se aproximou de mim, assim com um olhar engraçado, como se não estivesse me acreditando: — Quê que há? — perguntou.
— Não há nada — respondi. Puxa, já estava começando a ficar nervoso. — Acontece que eu fui operado há pouco tempo.
— É? Aonde (sic)?
— No meu... como é que se chama... no meu clavicórdio.
— Como é que é? Onde é que fica isso?
— O clavicórdio? Bem, para dizer a verdade, é na coluna vertebral. Quer dizer, é bem lá embaixo na espinha.
— É mesmo? — ela disse. — Que pena.
Aí ela sentou na droga do meu colo.

Anticlímax? Não, apenas o jeito Holden Caulfield de ser.

Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster, os tradutores de The catcher in the rye no Brasil, sugeriram ao autor o título A sentinela do abismo, mas Salinger não abriu mão, exigindo a tradução que permanece até hoje, O apanhador no campo de centeio. O título remete a um sonho de Holden: ele tem de evitar que crianças caiam num abismo. Esse é o clima de desilusão que se desenrola por todo a narrativa.

Posteridade

Agora que Inês é morta, sem querer desrespeitar a memória do homem, resta à posteridade conhecer o que o autor produziu nesses anos de reclusão, uma vez que a imprensa especulou que ao menos uma página ele escrevia por dia. É um tesouro que deverá vir a público um dia e, certamente, os leitores já aguardam ansiosos por isso. É tudo o que o autor menos queria, avesso que era às jogatinas de marketing literário que cercam os lançamentos de monstros consagrados, como era o caso do próprio Salinger. No fundo, uma pena. Mas vai o homem, permanece a obra. Independente do que vier pela frente, restará para sempre O apanhador no campo de centeio, essa obra singular da literatura; sem contar seus contos - os quais ele dominava com técnica depurada - e novelas, em livros como: Nove histórias (Nine stories), de 1953, Franny e Zooey, de 1961, e Para cima com a viga moçada e Seymour – uma introdução (Raise high the roof beam, Carpenters and Seymour – an introduction), de 1963.

Agora, Salinger não mora mais aqui.

Até mais, J. D.
 

31/01/2010