)Música(

1 ponto luminoso de 2009 = Los Hermanos + Kraftwerk + Radiohead / Kraftwerk, Los Hermanos, Radiohead

Renato Alessandro dos Santos

Não foi preciso chegar tão cedo, como no show do Iron Maiden em Interlagos na semana anterior, mas os problemas de organização se repetiram na Chácara do Jockey, onde aconteceu a versão paulista do “Just a Fest”, festival que reuniu Los Hermanos, Kraftwerk e Radiohead em São Paulo (22 de março) e no Rio de Janeiro (20 de março). Não bastasse uma lata de cerveja (Itaipava) custar R$ 5,00, um pedaço de pizza, R$ 8,00, filas para o banheiro e o bar, houve ainda a saída única, íngreme, ladeira abaixo, enquanto outros portões de nada serviram, uma vez que ficaram inacessíveis ao público. Pelo valor do ingresso (R$ 200,00; estudante pagou meia-entrada), os fãs mereciam mais, mas da organização e, não, dos músicos. No palco, três bandas mostraram por que 30 mil pessoas saíram de casa, de vários lugares do Brasil, para se encontrar em São Paulo, numa noite que começou com a segunda das duas únicas apresentações de Los Hermanos, cujos integrantes não se apresentavam juntos desde nove de junho de 2007.

Os fãs de Los Hermanos

É uma das mais cultuadas bandas da história do rock nacional, e a história de Los Hermanos parece ainda não ter terminado; certamente, ainda tocarão juntos e, nesse caso, certamente nada mais é do que um advérbio de dúvida. No “Just a fest”, surgiram no palco para ser ovacionados pela plateia, que não cansou de entoar o coro “Volta Los Hermanos” no intervalo de cada música. Para o show, o jogo já estava ganho. A explicação? A hermanomania, a paixão avassaladora dos fãs que se deixam levar por onde quer que a banda passe. E se os organizadores do festival imaginaram que Kraftwerk e Radiohead, a despeito da qualidade musical de cada um, poderiam não fazer verão e, com isso, não atrair muito público, a escalação de Los Hermanos fez bem ao evento.

Artisticamente, foi um festival que contou com três grandes bandas.

Los Hermanos fizeram uma apresentação competente, para quem aguardava vê-los em ação há tempos, mas nem tão competente àqueles que sempre torcerão o nariz para a banda. Sim, a voz de Rodrigo Camelo pifou em alguns momentos, mas a barba e a timidez edulcoraram seu reservado carisma de sempre. O repertório contou com canções pouco executadas, como a inspirada música de cabaré que é “Cher Antoine”, mas deixou de fora beldades como “Conversa de botas batidas”, “O velho e o moço”, “Samba a dois”, “Horizonte distante” e “É de lágrima”. Tendo em mãos um caldeirão em que cabem ska, mpb, samba e rock’n’roll, o repertório começou maravilhosamente bem, com “Todo carnaval tem seu fim”, passando por “Primeiro Andar, “O vento”, “Morena” e “Assim será”. Para muitos, o que mais pesou foi a ferrugem, nitidamente, o rememorar de acordes deixados de lado em quase dois anos de ostracismo; mas não faltou (tanto) azeite, como reclamaram alguns, na engrenagem rítmica que dá vida à banda.

 

O ponto alto do show foi “O vencedor”, com sua fusão de metais e guitarras em timbres agudos; é uma das canções que resumem a trajetória roqueira de Los Hermanos e foi cantada por todo mundo que sabia de cor a letra. Fosse outra banda, essa seria a última faixa do show, mas havia mais: “Casa pré-fabricada”, “Último romance”, “Sentimental” e “A flor”, que colocou um ponto-final à apresentação e, ao mesmo tempo, um ponto-e-vírgula na carreira da banda. “Até qualquer dia”, disse Rodrigo Amarante ao microfone, para desalento dos fãs, desencadeando especulações a respeito do futuro que terá Los Hermanos, enfim.

Alguém aí se lembrou de “Anna Júlia”? Não, a banda.
 

 

Computer World
 

Encerrada a apresentação dos Hermanos, era hora de ir ao bar e ao banheiro, exatamente o mesmo tipo de coisa que passou pela cabeça de muita gente. Mas foi tempo suficiente para voltar ao gramado e esperar por Kraftwerk, banda alemã que a partir dos anos 1970, com álbuns conceituais diferentes de tudo que existia à época, impulsionou e deu o pulo do gato à música eletrônica. Depois de duas comemoradas apresentações anos atrás no Brasil, Kraftwerk voltou ao país com sua união incendiária de telões, bips eletrônicos, computadores e quatro rapazes que mal se mexem diante de teclados aparentemente ancestrais. Se faz algumas décadas que o grupo é saudado como futurista, hoje o presente os alcançou e, ironicamente, o passado pré-Internet, ou seja, os idos de 70 e 80, com seus computadores toscos, radiação e robôs-máquina, é resgatado em pequenas obras-primas eletrônicas de um repertório retrô que faz todo mundo dançar. É a mais pura verdade. No palco, enquanto telões remetem a um mundo em que computadores são saudados como a grande sacada do ser humano, a música soa hipnótica e, claro, dançante.

Tão logo os primeiros movimentos eletrônicos de “The man machine” são executados, um a um, os integrantes da banda aparecem. Eles não expressarão um único sorriso durante todo o show e, muito menos, como os DJ’s atuais, levantarão suas mãozinhas para o céu. São robôs e, como tais, incapazes de expressar sentimentos. Faz parte do show. Com cada um mexendo apenas uma das perninhas embaixo dos teclados, compenetrados nos botões-mistério que apertam vez ou outra, vão apresentando clássicos tocados em tudo quanto é parte do planeta. Como nos show dos Hermanos, a cada canção são ovacionados, um gesto que se repetiria também com Radiohead. A mistura de telões e bips circulares funciona magistralmente. Ninguém é capaz de tirar os olhos dos telões e do palco, enquanto a música soterra os tímpanos.

É música para robôs. E por falar em robôs, um dos momentos mais esperados é quando a banda sai para ser substituída por quatro robôs de verdade, que mais parecem manequins de ateliês. Para muita gente que trazia uma pulga atrás da orelha, franzindo o cenho enquanto pensava “eles estão tocando mesmo ou é tudo música pré-gravada?”, naquele momento, ficava a certeza de que eles não estavam tocando nada mesmo. Brincadeirinha. É que ver quatro robôs diante de teclados, mexendo os braços de um lado a outro, sem tocar em nada, enquanto a música jorra, em loops que giram, giram, giram do mesmo jeito que antes, quando os quatro rapazes estavam no palco, bem, é concluir que Kraftwerk só aperta o play e deixa a música rolar em playback. Mas não é nada disso. Naquele momento, a presença dos robôs foi impactante.

Nos telões, frases e imagens de um computador antigo são disparadas a todo instante para o público, que as absorvia, concordando com tudo. Eis que os robôs são retirados para o segundo grande momento da apresentação, quando os rapazes voltam vestidos com macacões fosforescentes e o rosto totalmente azul. Tocam “Music non stop” e atingem o clímax: a Chácara do Jockey transformou-se numa boate dos anos 80 com um gigantesco pasto de dança, quer dizer, com uma gigantesca pista de dança a céu aberto. A apresentação chega ao fim e, um a um, como maestros, agradecem à plateia para desaparecer atrás das cortinas, rumo ao universo virtual onde devem viver. Foi uma apresentação formidável. Mas ainda faltava Radiohead, a banda mais esperada da noite.

 

Boa-“notche”!
 

Fazia tempo que o Brasil cortejava Radiohead, e nada de o grupo aparecer por aqui. Mas Shakespeare sempre está certo: tudo termina bem quando acaba bem. Considerada pela crítica uma das bandas mais importantes do cenário atual, o grupo fez uma apresentação estonteante. Ruídos eletrônicos, luminosidade incandescente no palco, composição experimental das canções, músicos talentosos, tudo conspirou a favor de Radiohead que, como Los Hermanos, não se deixa enganar pela indústria onde as cifras dobram no ar, como notas musicais. Radiohead foi a última banda a se apresentar, numa noite marcada por chuva fina que, vez ou outra, insistia em aparecer, mas sem incomodar ninguém.

Quando Thom Yorke surgiu, logo que a banda entrou no palco, dando pequenas pancadas no microfone e dizendo boa-"notche", parecia que a Chácara do Jockey seria o local escolhido para a maior vertigem coletiva da história da música. Foi o suficiente par o público levantar as mãos e agradecer a Deus por estar ali, pulando e gritando sem parar, enquanto cada integrante começava a tomar seu lugar no palco. Foi uma apresentação que ficou guardada na memória de muita gente como o melhor show de 2009, como a imprensa mostrou nas famigeradas listas de fim de ano. Se dois dias antes o grupo encantara os cariocas, era hora de São Paulo entender por que Radiohead é alçado à condição de uma das grandes bandas do planeta.

O show promoveu In rainbows, o disco que não “vazou” na rede, como ocorre com 10 entre 10 álbuns, porque a própria banda disponibilizou-o para download. O detalhe é que, na contramão da indústria, o grupo ofereceu as músicas a quem quisesse pagar algo ou nada por elas. Para muita gente graúda nas gravadoras foi um choque: “mas o que é que meus filhos vão dizer lá em casa?”, deve ter se perguntando algum cartola ganancioso, já prevendo aonde essa atitude iria parar. Mas foi abrindo mão do esquema em que o CD é a vedete e a vitrine para a divulgação do trabalho do artista, que Radiohead se mexeu, não ficando no mesmo lugar onde outras bandas criaram limo. O detalhe crucial foi buscar uma alternativa para driblar esse descaso de muita gente com o CD, desde que o download chegou para ficar.

Com um sistema de iluminação que utiliza apenas 30% da energia gasta em um show semelhante, o palco transforma-se numa miríade de cores que tendem a se camuflar de acordo com cada música: azul para uma atmosfera mais intimista e calma, vermelho para o clímax, verde ou branco ou amarelo de acordo com a circunstância de cada canção. Além das cores, a iluminação ainda contou com detalhes que aproximaram o espectador da banda. Há o ângulo inusitado das câmeras, que flagram a banda durante todo o show para jogá-la em imagens pouco convencionais nos telões, algo que, uma vez Radiohead, faz todo sentido. A tecnologia parece afirmar que um grande espetáculo passa por uma superprodução. Maior engano. A despeito de todos os recursos obtidos no palco, não fosse Radiohead uma grande banda, de nada valeria tamanha parafernália tecnológica.

Não se trata apenas de um vocalista e multinstrumentista arredio (Thom Yorke). Todos os músicos são talentosos. Um dos guitarristas (Jonny Greenwood) mexe nos botões de um equipamento desconhecido; é um GIMSN, Grande Instrumento Musical Sem Nome, além de se aventurar por instrumentos estranhos, como o Ondes Martenot. As linhas de baixo (Colin Greenwood) e bateria (Phil Selway) demarcam o ritmo, que se quebra, que se alonga, que se redime, exigindo bastante da banda. O outro guitarrista (Ed O’Brien), durante “Idioteque”, por exemplo, utiliza um chocalho que imprime ritmo intenso à canção. O show passou por Pablo Honey (1993), The Bends (1995), OK computer (1997), Kid A (2000), Amnesiac (2001), Hail to the thief (2003) e In rainbows (2007), que teve todas as faixas executadas aleatoriamente.

“15 step”, que abre também o último álbum, inicia o show. Na terceira canção, “The national Anthem”, a voz de um locutor da rádio Jovem Pan de Campinas surge de repente, causando a impressão de que alguma coisa estava errada. Interferência provocada por alguma falha técnica? Nada disso. Apenas um dos guitarristas com um rádio, sintonizando uma estação qualquer, com o áudio imediatamente explodindo nas caixas de som no palco. Foi uma intervenção original, inusitada e bem a cara da banda. Eis, então, que chega “Weird fisches/Arpeggi”, que você pode ouvir, clicando no ícone abaixo, à esquerda. “Why should I stay here?”, canta Yorke, “Why should I stay?”, enquanto baixo, bateria, voz e arpejos etéreos fazem dessa faixa uma das canções mais belas de In rainbows. “The gloaming”, “Talk show host” e “Optimistic” e outras canções vieram em seguida. “Idioteque”, com seu chocalho, é outro grande momento do show, com Johny e Yorke a mexer em botões e botões, com a música cada vez mais ensandecida e ensandecida, como ensandecida ficou a plateia durante o clímax de preciosos e precisos segundos. “Bodysnatchers” foi a última canção antes do bis - houve três.

Eles retornaram ao palco com “Videotape”, última e delicada faixa de In rainbows. Mas foram os acordes iniciais da canção seguinte, “Paranoid Android”, que comoveram os fãs. A música começa calma e, num rompante, as guitarras arrancam riffs que, fumaçando, passam zunindo como bala. Chega outro grande momento do show: “Paranoid Android” já havia acabado, mas o público a entoa novamente, cantando o refrão, até que Yorke, à capela, volta a cantá-la novamente. E o que vem logo em seguida? “Fake plastic trees”. Em uma palavra: uau. Para o segundo bis a banda volta com “House of cards”, melancólica e encantadora canção de In rainbows

No set final, já passava da meia-noite quando a banda voltou para o terceiro bis. Tocam “Creep”, o primeiro grande sucesso de Radiohead. Delírio. Chegava ao fim um inesquecível espetáculo há muito aguardado. Foram 26 canções. Poderia ser uma noite qualquer, mas não foi. Foi uma noite com Radiohead, Kraftwerk e Los Hermanos. Uma noite para se guardar. Se nossa vida é feita de pontos luminosos que, dispostos numa escala cronológica, oferecem sentido à existência de cada um, o show de Radiohead não foi apenas mais um show qualquer de 2009. Foi um ponto luminoso iridescente.
 

  • 127_04 Weird Fishes-Arpeggi.play

31/12/2009