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Häppy Nëw Yëär /

Beto Canales

Admito: ando irritado. Mais que o normal. Sempre pensei que isso fosse impossível, mas agora descobri que não. É que tenho motivos. Final de ano é um prato cheio de coisas irritantes. São dezenas de pequeninas falhas, insignificantes fatos e milhares de razões para que o controle vá para as cucuias. (Cucuias? Tem no dicionário? Caso não, paciência, pois é exatamente para lá que foi meu autocontrole) - (Outro parêntese? Logo depois do primeiro? Separados por um travessão? Isso existe? Bem, ele está aí, não está? Então existe. E para salientar que "autocontrole" não está errado. É assim mesmo que se escreve, conforme a nova gramática. Por falar nisso, lembrei do trema, mas como isso é outro assunto, deixa eu fechar o parêntese... ) Pronto! Uma observação: vocês não acham essa palavra estranha? "Parênteses". Sempre tive vontade de perguntar:

- E aí? Como vão os parênteses?

Se a pessoa respondesse que bem, só a tia Norminha que havia quebrado a tíbia e tal, eu prontamente corrigiria:

- Estou falando dos sinais de pontuação!

Porém, caso ela dissesse algo como "vão bem, tenho usado seguidamente em alguns textos, principalmente no lugar do travessão", replicaria, com um ar superior:

- Eu falava da tia Norminha e sua prole. Nova ortografia. Rááá!

Mas, em verdade vos digo, eu falava mesmo é do trema. Tenho até um texto sobre ele. Se tem algo que sinto saudade, que me faz falta diariamente é a... , é meu (a quem quero enganar?) cachorrinho Pink, o Flóide, que morreu e foi para o céu dos cães com a marca emborrachada de um pneu de caminhão. Pronto, outra palavra horrorosa: caminhão. "Nhão" é algo para se dizer pelo nariz, que a meu ver, serve só para produzir bolinhas de ranho e cultivar cravos, e não para falar. Quando Pink, o Flóide, foi atropelado (Mais uma, a-tro-pe-la-do. É, neste caso específico serve, afinal, ele estava nu) - Notaram? Usei novamente eles, os primos, ou os parênteses - bem, mas para não perder o fio da meada (Fio da meada? Não vou nem comentar, mas nem mesmo sabia que eu tinha um fio, e muito menos que a meada tinha), quando o Pink, o Flóide, foi atropelado, eu o vi no meio da rua quando o caminhão se aproximava. Respirei fundo e gritei:

- Pink, o Flóide, cuidado com o cami... e parei aí. Não consegui dizer o "nhão" pela boca aberta porque sou boca-aberta. (Gostaram? Boca aberta porque sou boca-aberta! Sentiram como até o cacofônico e feio pode ser útil? O primeiro termo refere-se ao estado em que minha boca, a carnuda, estava: aberta. O segundo ao meu estado, digamos, mental. Algo como moscão ou "dãdi", adjetivos assim. Nem precisava explicar? Vai saber se não tem nenhum da minha turma lendo). Bem, o fato é que Pink, o Flóide, parou e virou para me olhar. E eu com o "nhão" trancado na garganta. Quando consegui, saiu com força, mas não foi o tal do "nhão" e sim um "NÃO" mesmo, de pânico, pavor, por ver pedaços do Pink, o Flóide, pontilharem o asfalto negro e quente. Pontilharem? Isso me lembra do que eu falava, o trema. Eu sinto falta mesmo é delas, das duas bolinhas, lindas, uma ao lado da outra, organizadas, sonoras, flutuantes como deusas soberanas.

Dizem que final de ano é um período bom para lembranças, não é? Pois me empenharei em recordar o tempo em que fui feliz - parênteses: (trema, querido, chego a tremer de saudade) - e, como promessa de ano novo, saibam que escreverei vários textos sobre Müller, o homem que amava trema e odiava parênteses. "The fim".

Consegui irritar com um texto cortado e piegas como este? Mesmo? Ótimo! Não estou mais sozinho. Odeio solidão.

Tenham - se conseguirem - um bom final de ano!

(Tchäu)

Beto Canales, 47, é colaborador de Tertúlia. É eterno estudante de literatura, cinéfilo apaixonado e assumido aprendiz de crítico de cinema. É autor de A vida que não vivi (Multifoco), lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009. Escreve no blog Cinema e bobagens, de onde - com autorização do autor - este texto foi retirado. É torcedor fanático do Internacional, de Porto Alegre. 

31/12/2009