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Férias! /

Renato Alessandro dos Santos

Férias. Chegaram. Oba.

Em ordem alfabética: acepipes, amigos, bicicleta, cachoeira, caminhadas, cervejinha, cinema, chocolate, chuva, colchão na sala, edredom, filmes, futebol, gordurinhas localizadas, livros, madrugada, mp3, notebook, ócio, ócio criativo, sexo tântrico, Silvia, sol, Tertúlia, Théo, três de sete crimes capitais (gula, luxúria, preguiça), viagens, vinho, zabumba. Se tudo vier a ser como tem de ser, essas serão as palavras-chave de minhas férias - essas e outras que, de mansinho, vão se enfeixar aí. 

Acabei de chegar da locadora. Agora, 21 filmes estão na sala, aguardando por mim, Théo & Silvia, a patroa amada. Afinal, hoje é terça-feira & as férias acabaram de começar. Acabaram de começar? A carpintaria gramatical parece contraditória, mas não é não; o tempo voa e, quando menos se espera, já é hora de voltar ao trabalho. Sim, as férias não deveriam terminar tão rápido; elas deveriam ser em slow motion, como se fossem uma cena com Jim Carrey. Imagine a voz cavernosa vagarosamente pronunciando cada letra, “NÃÃÃÃÃ...”, e alcançando um ator em câmera-lenta, “ÃÃÃOOO”. Sim, não? As férias NÃÃÃÃOOOO deveriam terminar tão rápido. Quando o relógio biológico começa a se ajustar ao horário de verão das férias, pronto, elas acabam e vão embora como grãos de milho a escorrer pelos dedos e palma da mão.  

Então, é colocar o câmbio em ponto-morto e deixar o espírito languidamente espreguiçando pela casa, enquanto lá fora “chove chuva choverando”, como diria o grande escritor que foi Oswald de Andrade. Cabe um filme nessa hora? Sem dúvida. Um livro? Mãos em formato de antenas de UHF, para cima, enquanto olhos e lábios sorriem. O que mais? Cabe, também, música suave parafraseando o marulho do mar que, com ondas cíclicas, imita nossa respiração quando dormimos, sonhando com nada que seja possível lembrar ao abrir os olhos bocejantes? Claro. Ah, e se for para sair de casa que seja para ir a Minas ou à praia. As férias deveriam caber numa canção dos Beach Boys (sol, praia, garotas, coco gelado, cervejinha & queijo coalho) ou em “Under the boardwalk", essa canção beira-mar dos Drifters (que você ouve, clicando no ícone abaixo, à esquerda).

Afinal, são férias.

Mas muitos não desligam e não conseguem sair do ar, mantendo-se acesos para o que der e vier. Como assim? Você já ouviu alguém dizer que, agora, nas férias, será possível colocar a “casa” em ordem? O quê? Você mesmo falou isso?! No fundo, nós todos agimos dessa forma. As férias chegam e o corpo até pode cair numa pachorra danada, mas o cérebro, bem, o cérebro – como o tempo – não para, não é mesmo? E o que fazer?

Pense bem. Tem de ser agora ou tem que ser agora? Pode ser amanhã? Para Sal Paradise, um americano atravessando terras mexicanas em On the road, o sentido de “mañana” é outro: “essa palavra deve significar paraíso”, diz o personagem andarilho de Kerouac. Deixar para amanhã? Não, de jeito nenhum. Deveríamos seguir – ao menos quem conseguir - o que Fernando Pessoa, vulgo Ricardo Reis, escreveu.

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
todo em cada coisa.

Se as férias chegaram é preciso aproveitá-las por inteiro - corpo, alma, cabeça, pés. Afinal, com o espírito em paz, todos os dias úteis que se anunciam para o ano que vem poderão contar com você mais bem disposto para a peleja que, até que o jogo esteja ganho, não será abandonada. 2009 chega ao fim, enquanto 2010 espera ansioso atrás da cortina para entrar em cena. Sê bem-vindo.

Ainda ouço Macunaíma, como um Morpheu impagável, dizendo “ai, que preguiça”, enquanto duas bigornas puxam as pálpebras para baixo, no último resquício de madrugada. A TV continua ligada; eu, estendido no sofá da sala, permaneço dormindo como Cid, o bicho-preguiça de a Era do Gelo. Acima de mim, uma seta gigante e cheia de lâmpadas e luz neon anuncia: em férias!

Feliz Natal & 1 2010 upa!
 

  • 125_under the boardwalk.play

23/12/2009