)Cinema(

"O caos reina!", diz a raposa / Willem Dafoe, Lars Von Trier, Charlotte Gainsbourg, Anticristo

Beto Canales

"Trabalho para mim mesmo. Não devo satisfação a ninguém. Não tive escolha (ao fazer o filme). Foi a mão de deus, eu temo. E eu sou o melhor diretor de cinema do mundo. Não sei se deus é o melhor deus do mundo".

Essa frase foi dita por Lars Von Trier na entrevista que deu logo após a exibição de Anticristo, seu último trabalho, no Festival de Cannes. O clima não era nada amistoso, pois na sessão especial para a imprensa, vaias foram ouvidas em vários momentos e alguns jornalistas saíram antes do final. Lars falou essa pérola da modéstia humana depois de ser desafiado por um crítico inglês, que o indagava agressivamente sobre a razão de fazer o filme. Queria, a todo custo, uma justificativa. A queixa geral é que ele não havia sido compreendido, que não havia como entendê-lo, para ser mais claro.

Questão básica e esclarecedora: depois de ler a frase entre aspas acima, pode-se esperar o quê? No mínimo, uma curiosidade gigantesca é criada, claro. Verdinhas garantidas. A publicidade corre por vias tortas, sem dúvida. Por isso, prefiro uma análise "neutra". Ou, pelo menos, tentar.

Alguns detalhes (que foram incessantemente chamados de apelativos) merecem destaque. Existem cenas de sexo explícito, muito bem feitas e articuladas. Existem também cenas de automutilação explícita. Ódio explícito. Medo explícito. Luto explícito. Enfim... o filme todo é explícito. Desculpem a repetição da palavra, mas foi proposital para dar ênfase a essa questão. Se tudo é, por que o sexo, fator de extrema importância para o enredo, não seria? Apelativo seria disfarçar, ou, nenhuma saudade, colocar uma bolinha preta sobre a genitália.

Ressalte-se, também, a discussão travada sobre o gênero -- para muitos, ainda indefinido. O filme passeia livremente entre o drama, a fantasia e o terror. Alguns críticos rotularam como terror, mas com um "indiscutivelmente" ou "indubitavelmente" antes da vírgula. Estranho. Alguém já viu algo como "O Exorcista, certamente, Terror"? Claro que não. Coloca-se lá o gênero e ponto final. Essa falsa afirmação mostra a insegurança de quem definiu o filme assim. Somente isso. E, na verdade, ele sequer "cabe" no conceito de um filme de terror.

Pois sou claro quanto a isso. Trata-se de um drama. Difícil e belo. Bem filmado, com cenas apaixonantes e outras endemoniadas, muito bem montado e editado. A direção é impecável e trata de nossos medos. Todos eles. A técnica é relativamente simples. Começa com a pior tragédia que pode acontecer a um casal e desenvolve-se explorando nossa ruindade e estupidez, ampliadas e expostas pela culpa e pelo sofrimento, desencadeados pela desgraça.

É verdade que Lars, como em todos os seus filmes, abusa do uso dos símbolos. Ele mistura uma boa parte da ficção da ficção. Ultraja a "realidade" criada por ele mesmo. Mas, como falamos de cinema, deixa assim...

Mais um detalhe: o título foi dado simplesmente para render algum $$$ na bilheteria. Isso é lamentável.

Afinal, não sei se ele é o melhor diretor de cinema do mundo, nem se o deus dele é melhor do que o de qualquer um de nós, mas sei que Anticristo vale a pena. Se você quer ver o que será certamente o filme mais forte do ano, com cenas que extrapolam o convencional e, por vezes, causam algum incômodo, vá ao cinema, sem dúvida.

Se estiver namorando, vá sozinho!

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P. S.: A canção a seguir não faz parte da trilha sonora do filme, mas é de Charlotte Gainsbourg, filha de Serge Gainsbourg e de Jane Birkin. Charlotte e Willem Dafoe representam os personagens centrais de Anticristo. Ela se saiu muito bem no álbum 5:55, de 2006. Ouça a canção "The operation" clicando no ícone a seguir, à esquerda. 

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Beto Canales, 47, é colaborador de Tertúlia. É eterno estudante de literatura, cinéfilo apaixonado e assumido aprendiz de crítico de cinema. É autor de A vida que não vivi (Multifoco), lançado na Bienal do Livro do Rio em 2009. Escreve no blog Cinema e bobagens, de onde - com autorização do autor - este texto foi retirado. É torcedor fanático do Internacional, de Porto Alegre.

 

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29/11/2009