)Literatura(

Bonequinhas de luxo / Anos 80, personagens femininas da literatura, bonequinhas de luxo, A dama das camélias, Madame Bovary, Coraline Jones, Jane Eyre, Anna Kariênina

Renato Alessandro dos Santos

Pela primeira vez, aos 37, comprei duas bonequinhas de porcelana. Para mim. Também ando pensando em comprar uma bonequinha de Coraline Jones. De 18 centímetros. Mas essa é outra história. A questão é: como explicar a um rapazinho de nove anos que seu pai não virou “mariquinha”? Não me leve a mal. Foi apenas a expressão que ele usou para mostrar o que entende quando vê o pai comprando uma bonequinha numa banca de revistas. Explico.

Sou professor de literatura. Dias atrás vi na TV uma propaganda sobre umas bonecas que retratam personagens literárias. A coleção chama-se Damas de época. A primeira é Emma Bovary, a garota aí ao lado, que já comprei. A segunda é Margarida Gautier, a dama das camélias, do romance de Alexandre Dumas, filho. Já comprei também. A próxima é Anna Kariênina. Vou comprar. Meu sogro não entendeu muito bem minha nova mania. Minha sogra e cunhada ficaram encantadas com os detalhes de cada boneca. A esposa, citando Pepeu Gomes, disse que “ser um homem feminino”, sim, “não fere o meu lado masculino”. Rio, claro. O filho, brincando, perguntou se poderia contar para os amiguinhos. Sem problema. Mas talvez fosse melhor não.

Exalando masculinidade, seguindo sugestão de José Mayer, não vejo nenhum problema em um homem comprar uma bonequinha de porcelana para ninguém menos do que ele mesmo. Você vê? Até porque o álibi não é de se jogar fora. Não mesmo. Em muitas aulas sobre romances brasileiros do século 19, os alunos imaginam Capitu, Lucíola, Helena, todas vestidas com o mesmo tipo de roupa, ou seja, aqueles vestidos que escondem gordurinhas localizadas & tornozelos imaculados. É como imaginar, por exemplo, a moda de hoje igual à dos anos 80 ou de qualquer outra década. É simples: feche os olhos e lembre-se de quando tinha 15 anos, em 1987, e usava – com orgulho – uma calça baggy novinha em folha. Triste, não é? O curioso é que a moda atual vem flertando com aqueles anos. Se a coisa acontecer mesmo, e os anos 80 voltarem num revival permanente, vê se toma cuidado e não vai aderir a um corte de cabelo mullet ou às calças de lycra de cores cítricas. 

Certo, mas e a literatura com isso?

Numa aula sobre romantismo, ou realismo, ou naturalismo, durante a leitura e discussão de um romance de Alencar, Machado ou Azevedo, por que não ilustrar a imaginação dos alunos, mostrando uma dessas bonequinhas? Se não existisse o cinema, como você imaginaria Carmen Miranda adornada com uma cesta de frutas na cabeça?

As bonecas são o que se pode esperar de delicadas bonecas de porcelana. “Simplesmente um luxo!”, como diria Ataíde Patreze. O site afirma que elas foram criadas por artesãos “que dispensaram toda sua arte e dedicação na criação dessas belíssimas peças inspiradas em grandes personagens de ficção da época vitoriana, vestidas primorosamente com todos os detalhes”.

Confesso que gostaria de ver uma plaquinha aos pés de cada uma, indicando ao menos o nome da personagem retratada. Faria mais sentido. Também gostaria que personagens femininas da literatura brasileira fizessem parte da coleção, mas a julgar pela linha editorial, as garotas serão todas da literatura do Velho Mundo mesmo. Tudo bem, ótimo etc., mas a maioria poderia não ser só do período vitoriano. Sim, adoraria ver Julieta por aqui. Agora, se elas foram feitas por artesãos, francamente, pouco importa. Imaginar artesãos chineses – uai, de onde mais? - fabricando bonequinhas em série, uma-a-uma, como suponho – numa época em que posso comprar uma sombrinha de frevo fabricada na China, mesmo sem saber o porquê de tal aquisição, ou mesmo descobrir que um vestido encomendado por Angelina Jolie à alta costura italiana, deixando-a bastante à vontade diante das luzes de câmeras de fotógrafos e da TV, na verdade, foi produzido em um ateliê clandestino na Itália, pelas mãos de um fabuloso alfaiate que, perseguido pela máfia, torna-se motorista de caminhão, obrigado a abandonar a profissão de uma vida toda pela estrada –, bem, essa é uma imagem que, lendo Gomorra, de Roberto Saviano, não faz muito sentido, embora artesãos possam mesmo ter produzido essas bonequinhas que, aqui em casa, ainda estão sem um cantinho reservado especialmente para elas. Por enquanto. 

Há mais bonecas que vêm por aí. Quem gosta de literatura inglesa, russa, francesa, pode levar para casa Jane Eyre, do romance de Charlotte Brönte; Margaret Schlegel, de Howards End, de Edward Morgan Forster; Elizabeth Bennet, de Orgulho e preconceito, de Jane Austen; ninguém menos que Constance Chatterley, das páginas eróticas de O amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. Certamente virão outras, e comprarei essas outras, e talvez o jornaleiro continue pouco se lixando se um professor de literatura está interessado numa bonequinha de porcelana para suas aulas. De qualquer forma, sejam bem-vindas, garotas. Mi casa es su casa.

Para terminar, que tal uma musiquinha dos anos 80? Conhece Transvision Vamp? Para ouvir “Baby, I don't care”, clique no ícone abaixo, à esquerda.

 

ONDE COMPRAR:

Nas bancas de revistas e jornais

Damas de época

R$ 7,99 (NÚMERO 1);
R$ 14,99 (NÚMERO 2);
R$ 24,99 (DEMAIS EXEMPLARES).

 

  • 122_Baby_I_Don_t_Care.play

15/11/2009