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Alienígena bom é alienígena morto? / Distrito 9

Renato Alessandro dos Santos

Foi ver Distrito 9 no cinema? Não? Más notícias: logo que você chegar ao céu, Ele vai fazer a mesma pergunta. Se ainda não tiver visto o filme, Ele vai pôr a mão na sua testa e, com o indicador da mão direita pra lá e pra cá, como um limpador de para-brisa, vai dizer que não há jeito: “Tu vais ter de voltar à vida errante que levavas e ver o filme em um cinema!”. Gerson, você só não pode regressar ao corpo oblongo e, depois da primeira lufada de ar a passar pelos brônquios, querer prorrogar a ida ao cinema. Distrito 9 é um exagero na tela gigante de uma sala de cinema, especialmente, se for o caso de lugares em que também os decibeis ultrapassam só um pouquinho o suportável pelos tímpanos, educados anos a fio pela qualidade quase sempre duvidosa da(s) caixinha(s) de som da TV da sala.

Valeu a pena sair de Batatais e, 45 km depois, assistir ao filme em um cinema moderno do Novo Shopping, em Ribeirão Preto. Eu e a amada chegamos em cima da hora e nos sentamos exatamente no meio da sala de projeção quase vazia. Caísse o lustre colossal ali, caso houvesse um e estivesse no epicentro daquele cinema, eu & a patroa viraríamos um hambúrguer com catupiry naquelas poltronas destruídas. Seria triste. Mas não foi o caso, claro. Sim, a ação do filme, a serviço das luzes e das câmeras, é estonteante. Logo que as primeiras imagens surgem na tela, o espectador acompanha com prazer o ritmo ágil e eletrizante das cenas.

Como se fosse um documentário, começa a história: uma enorme nave espacial está há mais de 20 anos pairando no céu de Joannesburgo, na África do Sul. Nada de Nova York, Washington, Passo Fundo ou Varginha, mas uma cidade que sabe na pele o que segregação, apartheid e preconceito significam. Como nada acontecia, e a nave continuava ali, helicópteros vão até lá perscrutar o porquê da demora para o aperto de mão e tapinhas nas costas. Ao chegar à batcaverna, a horda de soldados e paramédicos descobre que milhares de alienígenas estão doentes. Para mostrar o quanto o coração humano é cheio de boa vontade, esses “imigrantes” que precisam de um lugar para ficar, como o Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, são colocados em um gueto que se transforma, anos depois, no Distrito 9, uma imensa favela onde tráfico, prostituição e outras mazelas vivem juntas numa boa. Mas a convivência entre humanos e extraterrestres torna-se intolerável. A solução? Desocupar o Distrito 9 e empurrar os alienígenas para bem longe dali, a um lugar ainda mais hostil.

Alienígena bom é alienígena morto?

Começam a surgir os personagens bem estruturados da história. Wikus van de Merwe (Sharlto Copley) fica encarregado do serviço sujo. É ele quem olha para a câmera e, chapa-branca, conta detalhes da operação, enquanto as imagens ainda em formato de documentário vão ilustrando a imaginação do espectador. A caracterização de Wikus é um dos pontos altos do filme. Com uma interpretação memorável do até então desconhecido Copley, sentimos desprezo por seu personagem, mas quando começa sua descida ao inferno, somos solidários com ele. Esse personagem, ao avançar em sua trajetória de herói, é a princípio retratado como um palerma, mas logo depois vai se humanizando cada vez mais e tornando-se menos caricato (ao mesmo tempo em que seu corpo segue caminho contrário). No epicentro da tragédia, vê-se obrigado a contar com a ajuda de um alienígena, Christopher, outro personagem que merece comentários.

Enquanto os militares deixam a truculência imperar (como diria Milton Leite, com ênfase peculiar no lê, “que beleza!”), Wikus, chefiando a ordem burocrática, encontra o barraco de Christopher, que mora com seu filho pequeno. Entrando ali, depara-se com um arsenal de quinquilharias de peças de computador pelas paredes e um laboratório de cientista louco sobre uma mesa. Wikus encontra um recipiente e, olhos arregalados, está prestes a cometer um erro colossal. Ele põe a mão ali e, como quem mete a mão curiosa por natureza onde não se deve, paga um preço. Do recipiente, jorra um jato de veneno-mistério que, no corpo de Wikus, terá efeito avassalador. Lembra do filme A mosca, de David Cronenberg? Além de parecer uma lagosta, os alienígenas ainda lembram o inseto em fase terminal que vomita sobre a comida antes de comer qualquer coisa com açúcar. Como acontece com o cientista que se transforma numa espécie de homem-mosca, a metamorfose dá seu passo adiante e o organismo de Wikus, inevitavelmente, começa a fundir-se com o DNA alienígena.

Doente, ele é levado a um hospital. Para seu infortúnio, o que antes era sua mão direita vira uma garra alienígena. Os olhos dos militares brilham: interessados na tecnologia bélica extraterrestre, eles não conseguem utilizar uma única arma sequer, pois elas se adaptam apenas à anatomia alienígena. Wikus, então, com sua mão-boba, passa a ser O cara. Mas ao descobrir que os mocinhos da história estavam do lado errado, ele escapa do hospital. Governo, militares, mídia, todos saem em seu encalço. Ele aparece na TV e é mostrado como um sujeito perigoso e procurado pela polícia; além disso, é apresentado como alguém que gosta de transar com ET’s, algo curioso, pois é como imaginar comer uma lagosta, mas não literalmente, claro, e, pior, uma lagosta com cara de mosca. Ao fugir, Wikus volta ao barraco de Christopher, que dá um show de interpretação e merece um Oscar.

1 Oscar para Christopher

Oscar? Como assim, Oscar? É que Christopher é todo feito em computador, como o Gollum, de O senhor dos anéis, outro personagem que também deveria ter recebido uma estatueta. Os efeitos visuais são capazes de registrar naturalmente os demais alienígenas de Distrito 9, bem como a nave-mãe imóvel no céu de Joannesburgo ou os braços decapitados e as pernas mutiladas que, dentre outras guloseimas com groselha escatológica de última geração, impressionam o espectador. Enfim, tudo é bem feito e integrado à geografia sul-africana.

Armados, Wikus e Christopher combinam voltar ao hospital. É que lá está o recipiente que, além de começar a transformar Wikus numa mosca-homem-lagosta, é o combustível capaz de levar o OVNI, que Christopher construiu embaixo de seu barraco, até a nave-mãe. É aí que entra o Oscar, porque o rosto e as expressões corporais de Christopher traduzem tristeza e solidão de forma imensurável, como um grande ator que consegue fingir a dor que deveras sente. A única coisa que ele quer é voltar para casa. Repare nos olhos e gestos de Christopher no hospital, quando ele descobre - sobre uma mesa - os restos mortais de um de sua espécie. É desolador. Um Oscar para Christopher?

À essa altura, estamos na complicação do enredo e o clímax não está longe. Quando um filme é bom, como um romance que lemos vigorosamente, é uma pena a certeza de que o fim está próximo. Chistopher promete a Wikus que, em três anos, conseguirá reverter o processo de mutação. Três anos?! O exército os alcança. Bombas, tiros para todo lado, mais explosões. Resignado, Wikus ajuda Christopher e seu filho a chegarem até a nave. Nessa hora, o espectador pode flagrar uma piscadela do jovem e talentoso diretor Neill Blomkamp ao Steven Spielberg de Contatos imediatos do terceiro grau. Tão logo Christopher aciona a casa das máquinas da nave-mãe, o som grave de uma tuba ecoa pela cidade, quebrando as janelas de todos os prédios e casas da cercania. 

Mas ainda falta algo importante, a cereja em cima do bolo que o filme traz, isto é, a metáfora que discute a sociedade onde vivemos hoje, como acontecia nos melhores dentre os piores filmes B dos anos 50, enquanto a Guerra Fria deixava a Terra em transe. É o jornalista Roberto Sadovski, da revista Set, quem consegue explicar muito bem o significado dessa metáfora:

“Esse é o mundo esculpido pelo diretor estreante Neill Blomkamp na espetacular ficção científica Distrito 9, que honra o gênero por trazer uma brilhante metáfora do planeta em que vivemos, escancarando um espelho em uma das regiões mais violentas e voláteis do globo que reflete a xenofoia e a segregação social daquela parte do mundo.”

Não espere para ver Distrito 9 em DVD; vá vê-lo num cinema perto de você. A única vantagem que terá, se cometer o pecado de aguardar pelo filme em casa, é torcer para que o pessoal coloque nos extras Alive in Jouburg, curta-metragem que deu origem a tudo que se vê em Distrito 9, esse filme que coloca seres humanos não no papel de mocinhos, mas de bandidos.

08/11/2009