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Animal Collective & 1 grande álbum de 2009 / 1968 - o ano que não terminou, In search of the lost chord, The Moody Blues, Pet Sounds, The Beach Boys, Merriweather post pavilion, Animal Collective

Renato Alessandro dos Santos

1968 ainda não terminou. Merriweather post pavilion é o oitavo e último álbum de Animal Collective. Eles acertaram o alvo e fizeram uma das mais desconhecidas obras-primas de 2009. A começar pela ilusão de ótica da capa, lúdica, como você vê abaixo e no início deste texto. Tudo começou no estúdio. Ao olhar para o futuro, o grupo buscou o passado. Faça as contas. De 1968 até 2009 somam-se 41 anos, mas a impressão que fica é que Merriweather post pavilion não foi lançado em 2009 e, sim, em 1968, o idealizado ano que Zuenir Ventura afirma ainda não ter terminado.

É um álbum repleto de detalhes, colagens e retalhos sonoros que o deixam com um aspecto moderno e, ao mesmo tempo, sessentista; moderno, pois, até agora, certa onda psicodélica nunca morreu e, em busca de uma sonoridade que trouxesse o passado para o presente, o frescor e a psicodelia estabeleceram uma conexão revigorante, como mostram muitas canções do álbum; sessentista porque os sixties, justamente por isso, nunca deixaram de ser evocados desde que aparentemente terminaram em primeiro de janeiro de 1970. Resta então a pergunta: como é possível um álbum que arremesse quem o ouve para frente e, ao mesmo tempo, faça lembrar que nunca uma década foi tão criativa como os anos 60?

A kind of magic  

Sabendo disso, Animal Collective, uma banda que faz da experimentação uma de suas características mais fortes, engendrou um álbum que traz tudo que um disco de 1968, ou 2009, tem de ter: ousadia, inteligência, criatividade à flor da pele e, sim, magia, muita magia. Espere um pouco. Não pense que o álbum é uma calça boca de sino cheia de broches com o lema “paz & amor”; é, também, mas a música é mais importante aqui. Para a banda, evocar os anos 60 significa encher o álbum de detalhes que começam a ser percebidos pelo ouvinte aos poucos, aqui & ali, como se o disco se completasse a cada audição, algo que é bem a cara de muitos registros clássicos do rock.

Desde a primeira faixa, “In the flowers” (veja vídeo abaixo), em que uma demão lisérgica começa a ser pintada e a dar passagem à psicodelia, tudo remete ao bucolismo festivo e revelador dos anos 60, em que drogas & talento uniram-se em busca de uma criação etérea e, muitas vezes, genial. Como uma pedrinha jogada num lago, bases rítmicas intercalam-se e marcam cada canção, repetindo-se em cada faixa. Esferas. Círculos. E a música vai surgindo, do nada, reverberando harmoniosa & hipnoticamente dentro dos ouvidos, como se notas e acordes fossem personagens que chegaram para tomar controle da situação e, com vida própria, acabam fazendo o que querem. Tudo se completa. “É um registro perfeito e organizado”, diz John Bush no blog allmusic a respeito de Merriweather post pavilion, “nenhuma nota fora do lugar, nenhum segundo perdido”, complementa (leia aqui). 



 

E nada parece mesmo fora do lugar. Desde “In the flowers”, passando pelas melhores faixas, como “Also frightened” (ouça, clicando no ícone à esquerda, ao final deste texto), “Summertime clothes”, “Guy’s eyes”, “Lion in a coma”, “No more runnin”, “Brothersport”, tudo faz bem aos ouvidos. Pet sounds (1966), a revigorante obra-prima dos The Beach Boys, está ali; outros também, como pode ser o caso de In search of the lost chord (1968), um grande álbum dos The Moody Blues. No baú de influências garimpado pela banda, a impressão que fica é que Animal Collective aprendeu a lição, e soube encontrar a dose certa de experimentalismo e psicodelia para seu revival sessentista.

Recentemente, Mercury Rev, The Flaming Lips e outras bandas vêm, com bom gosto, ressuscitando o lado psicodélico dos anos 60. Coube a Animal Collective em Merriweather post pavilion sintetizar a tradição que liga o rock moderno à sua predileção pelos sixties. E a banda se saiu muito bem. Ao olhar para o futuro, o passado surge colossal, mítico, inocente até, como em certos aspectos é possível definir a década de 60.

Diante de tanta música circulando hoje, ter a sorte de encontrar Merriweather post pavilion pela frente é contar com a certeza de uma experiência musical enriquecedora. Os rapazes do Animal Collective jamais poderiam ser o que são se não tivessem nas costas os registros dos álbuns anteriores. É a maturidade. Saindo do passado cheio de experimentação com a música e chegando à experiência que resulta de tudo isso, eles fizeram um entusiasmado álbum aos ouvidos. É como se o verão do amor nunca tivesse chegado ao fim. Cada faixa de Merriweather post pavilion parece acreditar nisso.
 

  • 111_03__Also Frightened.play

12/10/2009