)Entrevistas(

"Qualquer pessoa que escreve sabe que a simplicidade é a coisa mais difícil de se atingir", diz Michel Laub / Gre-Nal do Século, Longe da água, Não depois do que aconteceu, O segundo tempo, Música Anterior, 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, Michel Laub, Carola Saavedra, Santiago Nazarian, Daniel Galera, O gato diz adeus

Renato Alessandro dos Santos

Eu tinha um gravador à disposição e o escritor Michel Laub estava ali. Da mesma forma que em sete de agosto de 1974 o equilibrista Philippe Petit justificou a travessia entre as duas torres do World Trade Center, em cima de um cabo de ferro suspenso, simplesmente porque elas estavam lá, como não conversar com Michel Laub, um dos autores mais admiráveis de uma geração de escritores que, nesses últimos anos, vêm se consolidando dia-a-dia na literatura brasileira, como Daniel Galera, Santiago Nazarian, Carola Saavedra e outros, além de Michel Laub, claro.

Era 28 de junho de 2009, domingo, último dia da 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Depois de dez dias cobrindo o evento para Tertúlia, correndo para lá e para cá, feito a canoinha de “A terceira margem do rio”, de Rosa, eu já não aguentava mais a vida de jornalista e queria voltar para a sala de aula, mas, naquelas últimas horas da Feira, tudo o que aconteceu durante o evento justificava qualquer cansaço que o corpo pudesse sentir. Na mesma tarde de domingo, ainda haveria Thiago de Mello e todo o esplendor das pequenas coisas de sua poesia.

Terminada a apresentação de Laub, que dividiu o palco com Arnaldo Bloch, autor de Os irmãos Karamabloch (Companhia das Letras), fui ao encontro do autor. Tinha dois objetivos: uma entrevista para Tertúlia, que ainda não estava na rede, à ocasião, e os autógrafos em minhas edições de O segundo tempo e Música anterior. Estava cansado, mas não significava que o espírito não estivesse flamejante. Diante de mim, um autor que admiro. Sempre vi Laub como um sujeito um tanto distante do oba-oba que cerca muitos autores. Imagino que escrever para sites, jornais, revistas, e participar de eventos literários, como a Feira de Ribeirão, e de programas de TV e rádio, e viajar a escolas e bibliotecas para falar de literatura, enfim, imagino que toda essa efervescência constante venha consumir a vida de um escritor. Laub parece não perder muito seu tempo com holofotes. Quer dizer, ele escreve para sites, jornais, revistas, mas seu nome evoca uma discrição que, como ocorre a muitos escritores, é fundamental para se levar a vida.

Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. Além de escritor, é jornalista, e trabalhou por oito anos na redação da Bravo, como editor, editor-chefe e diretor de redação da revista. Hoje, coordena a área de Internet do Instituto Moreira Salles e, também, é professor de criação literária na Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Estreou com o livro de contos Não depois do que aconteceu (1998). Depois, escreveu quatro romances, todos publicados pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006) e O gato diz adeus (2009). Recebeu o prêmio Erico Verissimo (Revelação), da União Brasileira dos Escritores, e foi finalista dos prêmios Jabuti, Portugal Telecom (duas vezes), Fato Literário (RBS) e Zaffari & Bourbon de Literatura.

Laub mantém um blog e, aos 36, está disposto a escrever muita coisa ainda. Para quem não conhece o porquê de sua literatura, convém começar com O segundo tempo, romance de poucas páginas (112), mas pontuadas por situações que evocam o quão dilacerante pode ser a separação dos pais, quando os filhos ainda são crianças ou adolescentes. Laub considera o seu romance mais original e, nele, soube registrar um rito de passagem doloroso na vida de seu narrador: um filho cujo pai anuncia o fim do casamento, além da iminente mudança para outra cidade, com outra mulher. Ao final, tudo remete a esta partida de futebol, o Gre-nal do Século, jogo entre Internacional e Grêmio, que terminou com a vitória do Colorado por 2 a 1.

Futebol & literatura

“Hoje o futebol está morto, e duvido que alguém ainda chore por ele, mas não era assim no dia 12 de fevereiro de 1989”. Essa frase é o primeiro parágrafo do romance. “Se você lê a primeira frase do livro”, disse Michel Laub ao Tertúlia, descobre “que ela tem a ver com toda a história ”. Não por acaso, ela foi parar na seção “Começos Inesquecíveis” do blog Todoprosa, de Sérgio Rodrigues.

Já no clímax de O segundo tempo, a pergunta do narrador incomoda: “Você ainda não entendeu por que o futebol é importante nesta história?” E tudo converge para um domingo de fevereiro de 1989, para o Gre-Nal do Século transmitido para todo o Brasil, para a sensação de derrota que cai com uma guilhotina ao final do jogo e para a morte cifrada do pai.

Todo mundo já pôde ver no rosto de alguns torcedores o peso de uma derrota. Assistindo pela TV, quando a câmera focaliza a tristeza nos olhos de uma torcida derrotada, parece que a vida acabou ali, após o apito final. Pois é essa resposta, sobre a importância do futebol na história narrada, que Laub não dá, deixando que a imaginação do leitor possa fazer seu trabalho. O segundo tempo, mesmo pequeno em seu número de páginas, desde 2006, é um dos grandes romances da literatura brasileira atual.

A seguir, ouça a entrevista de Michel Laub para Tertúlia. Ele fala de seu método criativo, da carpintaria constante por trás de sua narrativa aparentemente simples, diz ser torcedor gremista e que esteve no Beira-Rio, no fatídico 12 de fevereiro de 1989. Fala ainda de seu curso de criação literária e de outros assuntos. Você, leitor de Tertúlia, poderá ouvir a entrevista, clicando no ícone abaixo, à esquerda. Eu tinha um gravador à disposição e o escritor Michel Laub estava ali.
 

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02/10/2009