)Entrevistas(

"Eu sou um cara normal, que escreve", diz Marcelo Mirisola / Animais em extinção, literatura brasileira, Marcelo Mirisola, 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, Fátima fez os pés para mostrar na choperia, narrador e autor, Proibidão, O azul do filho morto, O heroi devolvido

Renato Alessandro dos Santos

No calor de lascar de um sábado à tarde, 27 de junho de 2009, Marcelo Mirisola conversou com Tertúlia. Foi logo após o debate com o público na 9ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Antes do bate-papo, muitos esperavam encontrar um escritor aborrecido com Deus & o mundo. Foi preciso lembrar que ele é o autor desbocado e não o narrador priápico de seus livros. “Eu não vivo isso”, disse. Compreender a diferença entre narrador e autor é regra número um em literatura. “Você tem de desacreditar um pouco no narrador”. Entre uma lição e outra, foi uma tarde admirável. Todo mundo ficou à vontade diante do criador de MM, de Marcelo e de Marcelo Mirisola, hê, hê, o próprio; todos esses personagens homônimos confundem o leitor, que fica aturdido diante da ousadia de um narrador e de um escritor que cortejam a literatura de forma tão provocativa.

A chegada de Mirisola ao mercado editorial brasileiro, dez anos atrás, foi marcada por alarde. Tudo por causa de um livro de contos. “Eu virei leitor mesmo com uns 24, 25 anos”, disse. “Antes disso eu não lia nada”. Ele nunca escondeu que a literatura foi uma descoberta tardia em sua vida. Mas se a adolescência passou à margem das obras literárias, tudo mudaria após a descoberta de Pergunte ao pó, o despojado romance de John Fante. Foi dessa forma que a literatura encontrou um leitor em Mirisola. “Eu tinha nojo daquela literatura para vestibular”.

De leitor a escritor, o que estava “represado” virou literatura. Começou com um livro de contos: Fátima fez os pés para mostrar na choperia (1998). De repente, era como se as comportadas sessões de chá da tarde da ABL fossem substituídas por mais uma rodada de cerveja no boteco da esquina. Acepipes e bebidas em ordem alfabética: amendoim, cachaça, cu de burro, cubinhos de mortadela, cynar, jurubeba, pururuca, queijo-prato, rabo-de-galo e salsicha em conserva. Sim, afinal, além de escrever, é preciso celebrar a vida também. As madeleines poderiam ficar para mais tarde, madrugada adentro, na vigília silenciosa entre romancista e texto.

Depois, vieram outros livros. Contos, crônicas, romances. O heroi devolvido (2000), O azul do filho morto (2000), Bangalô (2003), Joana a contragosto (2005), Notas da arrebentação (2005), Proibidão (2008), Animais em extinção (2008) e outros. E o narrador-personagem sempre ali, no centro de tudo, no meio do tiroteio e de uma saraivada de linhas que embaralham sorrateiramente biografia e ficção, confundindo tudo. É por isso que, de forma corajosa, personagens à sarjeta habitam ruelas mal asfaltadas, cheias de buracos, enquanto a vida passa preguiçosa e sem enredo numa bicicleta caindo aos pedaços. Pouco se lixando para o circo montado ao redor da literatura, Marcelo Mirisola escreve numa primeira pessoa que, de tão desbocada, suja e punk, só faz lembrar o quão corajosa uma pessoa tem de ser para escrever desse jeito. 

As polêmicas existem e, falem mal, mas falem de mim, fazem parte da vida do escritor. Ainda bem que hoje as coisas não terminam mais em duelos com armas de fogo, passinhos rumo à morte, nada disso. Da crítica contumaz ao projeto Amores Expressos até a cobertura conturbada, três anos atrás, da 4ª edição da FLIP, MM arregimenta desafetos da mesma forma que um tufo de pelos seduz pulgas famigeradas. 

Novamente, não era a melhor hora, mas era a única. Ali estava um sujeito que não era persona non grata; na verdade, fosse ele como muitos imaginavam, depois de ouvi-lo, bastariam algumas cócegas nos pneuzinhos do autor para MM sorrir e com isso, pronto, adeus raivoeiro. Enquanto impedia o autor de tomar um chope no Pinguim, segurando-o no camarim do Theatro Pedro II com perguntas que não acabavam mais, para desespero do escritor, Marcelo Mirisola falou ao Tertúlia.

Ouça a entrevista, clicando no ícone à esquerda.   

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01/10/2009