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Vitória do Fantasma da Mogiana e uma visita ao túmulo de José Olympio / Candido Portinari, José Olympio, Batatais Futebol Clube, Fantasma da Mogiana

Renato Alessandro dos Santos

Tecnicamente, foi um jogo muito ruim. Em mais uma fria manhã de domingo, o time do Batatais Futebol Clube recebeu o Comercial de Ribeirão Preto e venceu o jogo por 2 a 0, no estádio Osvaldo Scatena. Com o Fantasma da Mogiana errando muito, e sem nenhuma grande jogada, não foram poucos os torcedores que xingaram e ofenderam mães de jogadores, técnicos e, claro, a mãe do juiz. E por falar em fantasma, após a vitória, por que não uma visita ao túmulo de José Olympio, no cemitério logo ali, ao lado do estádio?

Primeiro tempo

Logo no primeiro minuto, um jogador do Batatais cabeceou para o gol e quase abriu o placar, mas a bola passou rente ao travessão, dando impressão à torcida de que o jogo seria um belo espetáculo para quem foi ao estádio. Mas não foi nada disso. Com um primeiro tempo repleto de falhas de ambos os lados, parecia que o jogo não sairia do 0 a 0. Nessa etapa inicial houve gols, um para cada lado, mas foram anulados, e com razão, pelo juiz. Se o placar não foi aberto, o que se via em campo era o desleixo de jogadores com a bola: caneladas, bolas mal dominadas, bolas – em tempos de gripe - espirrando pelas laterais do campo, chutões, ou seja, se havia algum esquema tático, ninguém mais além dos técnicos foi capaz de descobrir. De um lado a outro a bola corria, mas ninguém soube cuidar dela como tem de ser. O a O. Com o fim do primeiro tempo, em ordem alfabética, palavrões foram ouvidos aqui e ali por todo o estádio.

Intervalo

Como havia um sujeito disposto a xingar não apenas a mãe do juiz, mas as mães de todos os jogadores do Batatais, eu & Théo mudamos de lugar. Eu não tenho nada contra palavrões. Aliás, ir a um estádio e não xingar o juiz uma única vez sequer é como visitar Batatais e não conhecer as telas de Candido Portinari na Igreja Matriz. De qualquer forma, não tenho nada a favor de palavrões também e, por isso, não vou deixar um menino de nove anos ficar com a impressão de que um estádio de futebol é o melhor lugar do mundo para se cultivar uma lexicologia nova e obscena.

Segundo tempo

Mudamos mesmo de lugar. No alto da arquibancada coberta, o frio dominava. Começou o segundo tempo. Théo, como num ritual, partiu para o terceiro saquinho de pipoca com bacon. Ele se preocupava mais com a localização exata do pipoqueiro durante a partida do que com os jogadores em campo. Para a etapa final, ambos os times pareciam ter se arrependido do que fizeram no primeiro tempo. Mas foi uma ilusão que durou poucos minutos. Logo o jogo entrava num beco sem saída novamente.

Se parecia que o Batatais voltava mais determinado, logo começava a impressão de que defesa, meio de campo e ataque, como esses mesmos setores do Comercial, não compartilhavam do objetivo primevo de vitória. Quando alguns torcedores estavam prestes a xingar o atacante do Batatais, Nhanha, que parecia fora de forma e machucado, eis que o rapaz aproveitou um cruzamento e, de cabeça, fez 1 a 0 para o Fantasma. Com o estigma de pé-frio a nos rondar, eu & Théo festejamos. Seria finalmente hoje que iríamos ver o Batatais Futebol Clube ganhar em casa? Passados mais alguns minutos, a confirmação: Nhanha foi seguro na área e recebeu falta. Pênalti. O mesmo Nhanha foi lá bater. Escolheu o canto esquerdo e chutou. Mas o goleiro defendeu, espalmando. A bola passou rente ao pé de um jogador do Batatais, que chutou cinematograficamente o ar, mas não por outro que, aproveitando o rebote, mandou a pelota para o fundo da rede. Gol do Batatais. Daí em diante, não havia muita coisa para o Comercial fazer. Final da partida, e o torcedor batataense, mesmo sem ter visto um espetáculo que merecesse aplausos, exaltou a equipe. Afinal, em casa, o Fantasma ganhou três pontos que o fizeram voltar ao G4, na quarta colocação do Grupo 2, um ponto abaixo do Comercial, que tem 15.

Uma visita ao cemitério

“Vamos ao cemitério, papai?”, perguntou Théo ao final do jogo. “Uai, vamos sim”, respondi. Com um céu plúmbeo, não havia melhor hora para visitar o pequeno cemitério que fica ao lado do Osvaldo Scatena. E lá fomos nós. Poucos sabem que o editor José Olympio está de volta a Batatais. Desde março deste ano, os restos mortais do eminente batataense foram transladados para cá e, hoje, ocupam um túmulo no corredor principal do cemitério Bom Jesus. Não sabia disso, e a descoberta foi uma grata surpresa. José Olympio morreu em 1990, aos 88 anos. Ele estava enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sempre tive uma admiração danada por esse homem que, laborioso, soube editar todos os grandes poetas e escritores brasileiros que estavam na ativa nas décadas de 40, 50, 60: Drummond, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e outros e outros que passaram pela casa José Olympio Editora. Com a vitória do Batatais, José Olympio deve ter ficado feliz; eu, Théo & a torcida do Batatais ficamos.
 

06/09/2009